a infância em mim

Há um tempo tenho me relacionado em diversos trabalhos com um olhar sobre a infância. Acredito que o início mais concreto desses passos foi durante o ano em que estive como assistente de cenografia em uma emissora de televisão em São Paulo (2009, BR). Foi nesse tempo de contato com Nani Brisque, artista visual e cenógrafa, que me aproximei com seu olhar delicado a perceber os materiais, suas formas e sua permanência efêmera dentro daqueles cenários que já permeariam diversas infâncias. Tratava-se de um projeto chamado Teatro Rá-Tim-Bum.

Dos materiais explorados, todos me fazem ser a pessoa que sou hoje, da busca do papel e das linhas pelo mundo de expressão artística. O cuidado e as escolhas, o cuidado e a alteridade do olhar.

Vivi, temos que ter um cuidado, não é porque são crianças que vamos nivelar a informação por menos, elas entendem!

Dessa visão da Nani o meu olhar se expandiu!

Vivenciar esse universo tornou-se recorrente na minha trajetória, se por escolhas ou sincronicidade da vida, o prazer de estar em belos projetos de arte e cultura me moviam. Pois em 2016, a parte que tempo e espaço são relativos, esse foi o ano em que iniciei uma experimentação dentro do Sesi Vila Leopoldina, um mixto de escola de 1400 alunos com um clube esportivo, com cerca de 10 atletas que participariam das Olimpíadas Rio2016.

Dentro do mix de um espaço de competitividade, de instituição escolar e educação, como desenvolver um trabalho cultural se a minha função de agente cultural também era um reflexo dessa instituição tão ateniense, dura e fria, ainda que de dentro as almas que ali habitavam sejam das mais belas e vivas com quem já convivi. Mas isso é um capítulo a parte! Junto do vigor de professores e das crianças, e de um gestor que não tinha medo do risco, conseguimos desenvolver e abrir um espaço que se chamou ¨Ateliê Cultural¨

Durou pouco tempo, pois nesse caminho havia uma mudança que me puxava fios de pulmão e já não me deixava mais respirar, após impulsionar o projeto do Ateliê, a Barcelona me chamava. Mal sabia que aqueles momentos ao lado das crianças no Ateliê eram o oxigênio dessa viagem que viria a fazer. Para chegar até aqui (hoje vivo em Barcelona), foram sonhos percebidos, sonhos vividos e uma troca de saberes com os pequenos. Foi do livro de James Hillman ¨O Código do Ser ¨ e do reencontro com uma história que meus passos voaram até este canto do Mediterrâneo.

Por fim, encurtando os passos, agora em março, volto a participar de um grupo de estudos promovido por Adriana Friedman, chamado ¨Sonhos, brincadeiras e expressões plásticas¨. Desse grupo resolvi criar este texto para compartilhar os momentos de pura magia que as trocas estão proporcionando.

Acredito que isso seja o tal processo artístico, das buscas, das compreensões e dos desentendimentos e provocações. Fato é que, longe das infancias, distante de crianças, busco compreender os passos da escuta e sua simplicidade. Antes de seguir com a escuta e o adentrar as infancias, sigo o fluxo de ouvir o que me chama e de onde respiro.

A infancia em mim…

James Hillman

Ateliê Cultural

Gostaria de citar aqui a Furunfumfum Cia de Teatro, participei da montagem da peça teatral Circo do Seu Lé para a TV, e além de toda a construção ao lado dos serralheiros, marceneiros e tapeceiros da Cultura, também houve uma busca de alinhar o pensamento estético à proposta da Furunfunfum, que em suma, olhava aos pequenos de igual, sem diminuir a complexidade da trama, provocando o universo de forma lúdica e infantil sem deixá-la boba. e