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| a book and a woman |
BOLLINGEN
Acabo de terminar o livro, e o que fica de sua escritura é que sobre qualquer lado, a perspectiva que me inunda é a de uma mulher que mergulha no universo de conhecimento e sabedoria sintetizado por um homem em uma pedra ao final do lago de Zurich (que também pode ser o início!), em Bollingen.
Lindo e profundo, me faz refletir sobre como nós, mulheres, recebemos e cruzamos esse caminho elaborado e desbravado por um homem (acompanhado de mulheres, um homem de seu tempo e outros) . Sim, há muita diferença, e Maud escreve em momentos de delicadeza e detalhes sobre isso, tudo o mais, é interioridade e uma aceitação do seu caminho, que muito generosamente essa artista compartilha com a gente!
Aqui vou deixar alguns insights textuais do livro, estão em inglês porque foi assim que o li, mas antes desses insights transcrevo um texto feito há três dias, quando ainda não havia terminado o livro.
Assim como Maud, ao invés de falar do livro, este texto é um relato de viagem, que embora seja muito pessoal, espero que seja um respiro suave, sem pretensões. Como diria a canção “eu não consigo ser alegre o tempo inteiro“.
Há infinidades de estradas, passos, percalços, instintos, sensações, emoções e sentidos.
A evolução segue seu curso, muito mais de 7 milhões de espécies no planeta, tantas outras desaparecidas, despercebidas, não vistas, des-enxergadas.
Quem sou eu, tão poeira e pequena para querer ser enxergada? Se nem por ela, talvez nem ele. Um esforço que busca um sentido além das energias arquetípicas, mas que certamente se a elas alcançar, em sã consciência – seja lá o que isso quer dizer – espero aguentar. Para em seguida desaguar, liquefazer e ser.
Mais além e à l’intérieur, como diriam os franceses, território de Lascaux, esses dias tenho lido Maud Oakes.
The Stones Speaks chegou a mim por uma dessas casualidades que a vida parece nos impor, e se estamos atentas, às vezes, dentro do tempo das deusas e orixás, aceitamos as letras e lemos.
Faz quase um mês e fui a passeio a Bern e a Wetzikon, Suíça. Acompanhada de Alfredo, mi pareja e Heinz, seu chefe e amigo. Nesse caminho eu sabia que ia para um lugar onde estaria muito próxima aos territórios de Jung, de Küsnacht, mas não tinha o amadurecimento conceitual sobre a biografia de Jung para saber dos seus dois polos entre Küsnacht e Bollingen (1)
Se a Giegerich o Jung de Bollingen pouco lhe interessava, nessa viagem, o Jung de Küsnacht não era o que me convidava.
Talvez eu quisesse mais era ver a torre de Marie-Louise, a qual meu recém e novo analista está mais integrado, talvez, quizás, quizás, quizás!
Mas fui a Bollingen, estive ali. Com Heinz e Alfredo, era um dia de sol, abri o portão, vi um carro na entrada e achei melhor não invadir.
Alfredo mergulhou no lago, eu e Heinz tomamos sol contemplando as montanhas.






O retorno – Barcelona, ela
Já havia ouvido falar sobre um livro feito por uma mulher a respeito da pedra esculpida por Jung, de uma meditação sobre ela, o que a princípio me parecia bizarro, mas quando vi o filme de Jerome sobre Bollingen, Maud me passou uma bela sensação. Vi o filme dias antes de viajar.
Ao voltar a Barcelona, sem ter visto a pedra esculpida de Jung, era como seu eu tivesse o permiso para uma idealização, inventar o meu genius loc, ainda que não soubesse que isso passava.
Me valido desse recurso psicológico (relembrando os estudos de psicologia social) de que depois que algo passou, parece óbvio que era o que tinha que ser.(2)
Fatos
Fatos, fiz uma pequena invasão à Suíça, voltei. Cheguei em Barcelona e comprei o livro de Maud Oakes.
Hoje estou encantada por ela e sua escrita. Maud também me recorda a Jenny (3) , minha amiga, artista e com uma sensibilidade e cuidados oníricos que se encontram com os da artista escritora.
Durante a transformação do livro a artista é a princípio muito crítica e diria que encasillada nas interpretações sobre os seus sonhos com seu analista, assim como também apegada aos escritos conceituais de Jung e em cartas que trocaram durante seu processo em que ela se propõe a meditar sobre a pedra esculpida por ele. Para mim foi um livro de interioridade e didática. Belo, ainda que ao final venha um mergulho que já me cansava um pouco, é bonito o seu aprofundamento, um caminho. Sem querer ser spoiler, mas beira ao mundo das imaginações ativas com a naturalidade de uma artista que viveu entre nativos da América, para nós, americanas isso não é uma novidade. Para os europeus, não saberia precisar, mas Jung chega a pedir a Maud que não publique o livro na Europa (deixarei citações do livro ao final deste post).
Escrevi esse texto num dia de trabalho leve, raridade, fui ao sol e me recordei do que realmente queria escrever:
Descobri nesse meu percurso com Maud O de que ela foi companheira intelectual de Joseph Campbell, e me lembro de la ilusión – essa palavra em espanhol tem um sentido de alegria – que tinha em ganhar, aos 17 anos, em uma navidad, o livro O Poder do Mito, que me tocou em maravilhas pelo resto da vida.
Não imaginaria que tanto tempo depois esse caminho arquetípico, da profundidade da evolução biológica e espiritual ainda estaria sendo bailado pelos meus passos. E tudo faz sentido na dança da vida.
Por fim, muito contente de ler Maud e sua versão, de uma mulher, como ela mesma diz, sobre aquele legado tão físico de Jung, a pedra (4).

(1) ouvi isso de Marcus Quintaes e fiquei curiosa para ler o texto de Giegerich, pois sigo a sentir que minhas leituras sobre a psicologia profunda são mais que tortas, são anímicas, circulares e nunca retiveram alguns tipos de dados, que acredito que agora é hora de aceitar e conhecer, enfim, sem justificar minha ignorância, fui ao lado b de Jung. O texto de Giegerich acabo de encontrar, escrevo aqui ainda sem tê-lo lido.
(2) de alguma maneira essa viagem foi também um portão a atravessar e que ainda temo. Durante esses dias me inscrevi na pós-graduação para analista junguiana. São conceitos, definições, se é que isso é possível, e eu, toda arquetípica das imagens e poesias sinto que é hora de ler seriamente Jung, mas sem perder a ternura. Nessa viagem meu mundo ainda flui entre cisnes e cegonhas, rios e um portão que ainda se confunde entre o que é meu e o que é coletivo, o que é dele e o que é dela, e de todes.
(3)Jenny Owens leu um texto de Margaret Tait para mim neste vídeo que gosto muito e se quiserem conhecer seu trabalho certamente é um mundo a parte de imagens e poesias.
(4) Dia 10 comecei o curso do IJEP sobre a psicologia junguiana, um curso de maioria estudantes mulheres onde muitos professores de visibilidade são homens. Maud Oakes vem me lembrar de que vou estudar Jung, e ela enfatiza sua visão e do quanto ser mulher muda muito o olhar sobre aquela pedra. Sou suspeita ao falar sobre Hillman, mas Maud já entra ao lado de Paty Berry e outras mulheres que se formam no meu imaginário da psicologia arquetípica e analítica. Ainda predominantemente branca e sim, ainda patriarcal.
CITAÇÕES DO LIVRO
The Stone Speaks: The Memoir of a Personal Transformation [Oakes, Maud]
citações de Joseph L Henderson
“The message of Jung´s stone (…) derived from the original image of the healing art. This is an art that naturally accepts the principle that health is the product of inner change. In terms of Jung´s actual formulations, it is to be achieved not by a scientific fragmentation of thought, not by analysis, but synthesis, leading to integration.”
“It´s true, as Jung himself has observed, that this type of creativity initially disturbs the rational mind, and may even seem to embody bad taste when considered from a formal contemporary artistic point of vies, but there is no denying its ultimate practical effects. ”
O discurso dessas citações de Henderson circulam ao redor do campo das artes, um questionamento constante nos meus processos como artista também formada em uma instituição acadêmica, ateniense e que usa como matéria poética a expansão da alma no cotidiano, ainda que as vezes, o ateliê da vida se distancie.
Henderson, segue suas divagações belas na introdução do livro:
“What other reason could there be to create these psychological forms of art if not to make them conscious by seeing them, by meditating on their meanings and ultimately integrating the messages they bring?”
Henderson também comenta que em Zurich, Jung nos últimos seminários em inglês insiste que
“we must feel the material thoroughly before trying to interpret it”.
E essa forma de observação do material onírico é muito próxima do processo com a qual escrevi minha tese e realizei o mestrado em Barcelona, méritos sobre o olhar que chegam com a aprendizagem que tive vinda de Teresa Blanch, Pepe Montoya e Alberto Varela, onde percebi que a visão poética incansável da vida, ainda que muitas vezes não bela, é arte. Não vejo diferença entre esse olhar para a imagem vindo do analista de Maud e os dos meus tutores de mestrado, e claro, o meu olhar sempre em construção e fluidez.
“You understand the stone as a statement about a more or less limitless world of thought-images, I quite agree with your view. One can read the symbols like that. When I hewed the stone I did not think, how ever. I just brought into shape what I saw on its face”
trecho de Jung citado por L. Henderson.
Há uma explanação breve sobre a livre associação freudiana e a amplificação de Jung, que marquei para reler, mas neste espaço de introdução segue uma didática sobre o que vem no processo de Maud no livro. Ele vem a dizer que é o método da amplificação como deveria ser. Sem literalidades, mas com os insights que emergem
“from such a method that allows the analysand to know something he did not know before”
citações de Maud Oakes
Maud, assim como o Giegerich que citei no texto inicial deste post, mergulha em um processo de anos no qual sabe que há um Jung para ela, o Jung dela, que inclusive surge em suas chamadas “meditações”. Esse Jung se mistura com algumas cartas que ela trocou com ele, deixo aqui um trecho da sua escrita, sobre o início do seu processo:
“I felt that what Jung was telling me ws that my approach to the Stone was too intellectual and lacked feeling. This criticism was valid, and yet I knes that there was more to his censure than what lay on the on the surface of the letter. It was ovious that I had identified with the Stone and with Jung, and that this identification was interfering with my analysis, but I did not know what to do about it.”
Essa é a parte do processo do “unknown world” em que não se sabe o que fazer com aquele material que surge. E aí onde Maud inicia o que ela chama de “sort of trance” e pergunta a “Stone” sobre o que fazer. E para mim, os processos são muito próximos aos da imaginação ativa quando ativada por uma imagem já anterior, Maud não utiliza o termino, essa é uma percepção minha (sem investigação profunda!).
Há uma parte do caminho de Maud relata seus mergulhos arquetípicos, como quando relata sobre o animus “then he usually responded by becoming a helpful, creative partner”, e também sobre
“it required staying on an even keel and being constantly aware of all my shortcomings”.
O texto é muito mais que essas citações que retirei aqui, guardo estas porque são as que consigo me conectar mais profundamente agora, aqui, virtualmente, as ativo novamente em mim sem minimizar a leitura anímica do texto, que pertence a um tempo de olhar e dedicação a obra de Maud. Enquanto que a apreciação da Pedra de Jung, deixo para outro instante da vida, quando os portões estiverem abertos para eu entrar, e a casa para me receber.
