SOBRE GIEGERICH, BARRETO E SABAN

Tenho uma conduta, recorrente, da qual já me dei conta faz muito tempo, assim como já sei que sonho muito com imagens e cenas nos banheiros, diálogos em especial. A conduta a qual me referia é de que leio de trás pra frente réu confesso!

Pego uma revista e folheio de trás pra frente, do final ocidental ao início, como se fosse árabe. Dizem que os fenícios iniciaram as escritas da direita para a esquerda, os japoneses, os orientais, mas essa amplificação gauche, digamos, ou prefiro ver assim, vai para outro dia.

Fato é que nas leituras onlines também me detenho a isso, deixo aqui alguns artigos citados e extremamente interessantes para fundir a cuca num sábado de manhã, em que eu deveria ajudar mi pareja a limpar a casa.

Giegerich, Marco Heleno Barreto e Mark Saban (de quem creio que já li outras coisas e não gostei, mas isso era de quando eu lia sem pensar que um dia poderia ser analista, era outra persona!). Filosofias a parte, tudo começou com Marcus Quintaes provocando uma pergunta em Thiasos (já citei essa pergunta antes). E esses tantos Jungs, assim como o Carl GJ de Maud Oakes a quem estive lendo recentemente, me fazem pensar se posso, e como posso elaborar um espaço ateliê onde também há “clínica”, um local em que alma se faça através da singularidade e presença no mundo coletivo, e com estruturas também vindas do Jung cientista, mas como gosto de dizer, sem perder a ternura.

Me arriscaria a dizer que nenhuma analista seja junguiana, que deste ser que assim se diz surgem correntes, as que libertam e as que significam caminhos, ou seja, que cada uma o lê e usa como cada troca analítica e poética necessita, dentro das suas próprias formas de viver, também compartilhada de alguma forma pelas pessoas que nos buscam (seja para provocar “o outro”, absorver, mergulhar, contrariar, expandir).

Uma reflexão, recentemente iniciei análise com um homem, que neste momento da análise muitas vezes reluto em entregar-me a uma racionalidade dos meus sonhos contados, um quase bloqueio a amplificar os sonhos que conto. Meu sonho, permanecer no sonho, dar voltas neles, chorar com ele, sorrir, rir, dançar, seja o que for, mas neles, com meus ratos e banheiros que ainda aparecem em tantos sonhos, ou mulheres jovens, sábios doidões… enfim, citei aqui alguns dos mais recentes que me apareceram. Reluto em amplificar, como diria a clínica da psicologia junguiana, assim como no cotidiano pouco tenho bailado fora deles, e sei que preciso. Mas ainda que os alcance, veja, estou em processo, ainda que os perceba como curiosa e estudiosa, como trazer a vida e seguir animicamente sonhando dentro deles?

Em certos momentos parece incompatível, mas há uma filosofia dentro desse processo, profunda e vezes cansativa, que leio e penso que ainda nem domino conceitos básicos, então por que dominar a abstração filosófica da alma? E sobre tudo, por que tantos homens falando? Por que procurei um analista homem!?

Isso faz parte do modelo que desfaço e refaço para estruturar o meu genius loc!


Saindo de mim

Paro de divagar nas questões pessoais (lembrando que sim, estão em contato com o mundo) e deixo aqui os artigos para ferver. De trás pra frente como eu já disse:

“Two Jungs. Apropos a paper by Mark Saban”, Giegerich, publicado no Journal of Analytical Psychology, 2015

Aqui Giegerich recente e explana brevemente sobre o seu Jung e o de tantos outros, e talvez esteja dizendo que o seu é o melhor (mas preciso me debruçar sobre seu texto para poder afirmar isso, não me arrisco a resumir assim). Este texto é a resposta ao seguinte texto que copio aqui:


“Another serious misunderstanding: Jung, Giegerich and a premature requiem” Mark Saban, publicado no mesmo jornal Journal of Analytical Psychology, 2015 

O artigo de Saban sendo mais unilateral, tentando provar significados, e tenho que dizer que ainda que tenha alguns argumentos incríveis, que vou citar aqui, o conflito intelectual entre ele e Giegerich e Marco Heleno, também citado no texto, é para mim como leitora um prato cheio. Como futura analista também, mas talvez como diria Giegerich, como psi pouco me interessa quem tem a razão, prefiro fluir entre esses conflitos e aceitar o interior daqueles que se aproximam, sejam grupos, pessoas, seja mundo.

Nesse texto também está a crítica a Marco Heleno Barreto,  conheci seu trabalho por conta do Thiasos (um grupo incrível que me nutriu muito em 2021, segue nutrindo, mas gostaria de poder trocar mais com eles, em especial com elas, tantas mulheres e pouco nos expomos).

“For Giegerich, the opus magnum is then radically and fundamentally different from the opus parvum: the individual, the personal, the ‘merely subjective’ experience, the ‘human all-too-human’ (ibid., p. 146); and, the private, the small-scale, the banal and the narrow—the egoic (Giegerich 2008a, p. 150). To confuse the two would be a serious error, according to Giegerich. Nonetheless, we are told, this is precisely the error that Jung committed:”

Penso que se no erro está a alma, há muito mais nesse conflito de visões do que posso imaginar, mas hoje é sábado e tenho a casa ainda cheia de pó, literalmente, para cuidar!

Depois de limpar a casa

(as dores do mundo como canta Hyldon)…

Volto ao texto de Saban, começo a ler o final do que ainda falta, e tenho a impressão de que ele e Giegerich estão dizendo no fundo a mesma coisa, e me questiono, será que só eu vejo isso? Pode ser que agora seja o que possa ser visto por mim, que no fundo eles falam da mesma coisa, mas que realmente não há, neste momento dos seus textos, uma maneira de que percebam isso!

Este comentário me instiga, penso igual e dispenso, mas não tenho propriedade junguiana para argumentar, ainda não li Jung totalmente (e vou demorar um tempo para que isso aconteça). Então deixo aqui a percepção desses autores para divagar e seguir criando meu espaço de loucura e perpetuação de mundo.

“Jung is painfully aware how ‘small and invisible’ his contribution is, but is nonetheless insistent that there remains a sense in which ‘the whole weight of mankind’s problems [have] settled’ in the here and now of the consulting room. As small corresponds to great, the opus magnum is therefore self-similar to the opus parvum; their relation is fractal. To imply that Jung is guilty of inflation is to miss the point.”

Saban

Aprecio quando Saban relata a visão de que Barreto, em casos excepcionais, sinala que

“they ‘may have also a broader significance, thus displaying something of the psychological dynamism going on at the level of opus magnum’ (p. 62). Barreto suggests that some of Jung’s visions and dreams might be of this sort”

 E eu digo, hora de aprofundar em a Queda do Céu deDavi Kopenawa, a tese da Lucila ( O campo e o capim: investigações sobre o sonhar nos Kamaiurá), a poética, mas, retornando ao mundo do branco, das artes, e da compilação de Saban que é muito similar ao percurso que passei nos anos de mais intensa dedicação artística, deixo outra citação de Jung usada no texto:

Despite an initial resistance to this idea, Jung did, for a while, as Ross Woodman puts it, ‘treat [the visions] as art, transferring them from a Black Book embellished with mandala drawings to a Red Book, which he also embellished. In the Red Book he tried a further “esthetic elaboration”’ (Woodman 2005, p. 42). But ultimately, and crucially, Jung gave up this ‘estheticising tendency’ because he saw it as a form of possession by the unconscious, ‘In the final analysis the decisive factor is always consciousness, which can understand the manifestations of the unconscious and take up a position toward them’. (Jung and Jaffé 1989, p. 187 [my italics])

Saban critica a Giegerich por este dizer que a arte se presta como vaso vazio, mas essa é uma discussão do campo artístico interminável e susceptível ao espirito do tempo, Boris Groys adentra nesse tema, por exemplo. Assim como há os diferentes jungs, há também as diferentes formas de arte. Não vejo que Giegerich recusa a este modus operandi de Jung, como diz Saban, apenas entendo, a princípio, que não lhe interessa no campo da psicología como ciência esse Jung, mas se não o interessasse por qual razão se dedica em argumentar sobre ele para relatar suas escolhas?

Sombras!? Homens falando a mesma coisa, vejo isso… diria…

Hora do café e elas

Sei que este texto está truncado, ele deveria ser só para citar os textos que andei lendo e recordar-me do que senti nessa leitura. Por outro lado citei já duas mulheres nele, duas energias poéticas que mergulham no sonho de formas distintas, ambas em aproximações e vivências com nativos das Américas (Xingú e Centro América), Lucila e Maud.

Mas, hora de voltar a ler, e agora é o texto de Marco Heleno, acompanhada de um café depois da comida!

“Another serious misunderstanding, indeed! – a response to Mark Saban” de Marco Heleno Barreto, publicado no Journal of Analytical Psychology, 2015

Incrível, sigo admirando o pensamento do autor, provocativo, necessário, uma cutucada no comodismo da individuação seja lá o que isso significa (sim, é necessário rever, refazer, dançar com ela e ativar esses processos falhos, reviver a alma mundo e desentender o que escreve o autor, os autores, ser autora!).

Barreto responde a Saban e escreve, surpreendido negativamente como ele mesmo diz, um texto que me parece em alguns momentos ressentido, ou indignado, e com razão, diria minha mãe!:

Saban’s piece is thus a kind of excommunication act, no need to take into consideration Giegerich’s thought, because it is irrelevant to ‘modern Jungians’.”

Barreto segue,

But to a serious and unprejudiced Jungian scholar who is not only interested in exegesis, in ‘what Jung really said’, but is devoted to examine Jung’s thought critically and thinkingly, Giegerich’s thought is not irrelevant, even if his delimited interpretation of Jung’s notion of ‘soul’ found ‘no source in Jung’s psychology, implicit or explicit’.

Como não se encantar!? Pois é aí em que me incluo como curiosa, e sim, me interessam!

Mas é aí, que o texto de Marco vem uma carta bela, e pra mim muito linda, uma vez que já anotei que quero ler este livro de Jung (eu venho das leituras de Hillman e dos Jungs culturais, assim que como já escrevi mais de uma vez careço de aprofundamento teórico em Jung propriamente dito). MH Barreto escreve sobre os exemplos de sonhos que Saban cita em seu texto, tirados de Psychology and Religion:

Concerning the two dreams interpreted in Psychology and Religion, we now know that the dreamer is the physicist Wolfgang Pauli. But this personal referent is irrelevant to Jung’s interpretations, which focus on the images themselves, and not on their relation to the life of the dreamer.

Sim, li que Jung escreveu esse livro sobre os sonhos de Pauli como se fossem eles por eles, isso está citado no livro de Maud Okes, como uma comparação entre a forma com a qual ela olha para a Pedra cavada por Jung e a estrutura de análise de Jung sobre os sonhos de Pauli, sem considerar W Pauli. Bem, aqui fica uma linha de pensamentos e sugestão para uma próxima leitura torta de Jung, meu Jung.

Por outro lado, MH Barreto me parece certeiro nisso, que exemplo injusto foi escolhido por Saban, e que vontade de ler Psychology and Religion já! Calma, Vivi! Inclusive para argumentar com Barreto e Saban sobre possibilidades, encontros, bem, argumento aqui em meu universo!

“Hence, in Psychology and Religion, Jung envisages the dreams as soul expressions of itself, and not of the private life of the dreamer.”

Peço desculpas por usar minha referência tão mundana, mas truco! Barreto esclarece o que se passou ali:

Jung himself adopts an approach based on the tautological principle.

Observo, não li, não posso argumentar, mas ainda que Jung faça isso no livro, creio, intuitivamente, que isso é uma experiência, como tantas outras, não uma conclusão da tautologia da alma, mas sim dessa possibilidade e existência, mas ainda preciso ler para chegar nisso. Assim, ainda que exista um truco, me parece que o processo desses textos em mim não são uma disputa, como me parecem estar construído, mas sim uma ampliação de pensamentos e perspectivas. E sim, penso que nos levam a muitos lugares, para estar e por vir.

Como não citar outra vez, vou tentar parar:

Saban characterizes as a ‘single lens’, then there would be nothing to object to (despite the fact that such terminology tends to convey the false impression that Giegerich’s approach is deficient and impoverished, when actually it only wants to be rigorously differentiated from other possible approaches, especially the personalistic one). Giegerich explicitly acknowledges the wealth of perspectives constituting Jung’s thought, ‘There are several quite different aspects to Jung’s psychology’ (Giegerich 2013, p. xii). But he is interested mainly in that Jung who had ‘a real notion of soul in contradistinction both to “psyche” (the behaviour of the organism) and to “civil man”, the “empirical personality”, or “the ego”—soul as a reality in its own right and as objective soul (whose “greater part is outside the body”, that is, outside the human individual)’ (Giegerich 2013, p. xiii).

Giegerich’s thought, by the psychological difference between soul and ego. Ego precisely ‘does not know and does not understand’ that which dreams are seeking to express, and can ‘interfere with unconscious material’, not allowing it ‘to come to the surface on its own terms’ (ibid., p. 97)

Até aqui, para mim, hillmaniana antes de nascer, nada de novo sob o sol, há um casamento com minha experiência artística que só me faz sentir que esses discursos, são também do universo das artes.

Fato é que a “pelea” intelectual tem uma amplificação bela, mas de todos os textos o de Giegerich é o que mais me anima a perceber e aceitar os jungs, assim acho que vou me preparando para ler o homem, talvez de trás para frente, assim como as revistas e livros que toco e folheio com mãos e olhos de artista.


O relógio de Bern é uma lembrança da relatividade, perspectivas, tempos e espaços! E todas as imagens deste blog são minhas produções 🙂

Deixe um comentário