prometeu e epimeteu de carl spitteler

das belas imagens da alma!

faz um tempo que busco as palavras ideais para expressar uma das leituras mais belas que vivenciei, não as encontro, igualmente escrevo

antes desse período de copa do mundo e prometeu, mergulhei na leitura do livro tipos psicológicos de carl jung, desbravando um universo de categorias que eu temia em entrar, afinal, categorizar é limitar, além de dar nomes, mas sem delongas mergulhei nele.

o livro não deveria surpreender-me, ou não esperava, mas jung geralmente é jacques cousteau na pesquisa [gosta de mergulhar profundamente – como diria alfredo!]. o livro, que ainda não terminei é denso, leva-me a estudar o graal, a ferida de amfortas. e sobre feridas, e dores do mundo, a gente só quer saber do seu, do nosso amor, a la hyldon. fato é que tipos – como costumam dizer as junguianas, é um livro lindo e revitalizador.

a primeira divagação é amfortas, e sua ferida.

amfortas sofre na sua ferida eterna, jung escreve que é porque lhe falta a força vital. se é verdade que memorizamos aquilo que nos afeta, amforta me conforta em saber que outro semelhante existe, em seu sofrimento, mas quem lhe poderia compensar na sua força vital?

quando se sofre podemos saber até as infinitas causalidades dessa dor, ou mesmo não ter os nomes dessas causas, mas que importa? dói. e a dor pode fazer parte de uma tal inércia, ausência de força que possa desviar do estado original, seja ele de repouso ou de movimento permanente. em um carro o cinto de segurança pode ser importante para resistir o corpo ao movimento da inércia, mas me pergunto para que serve a inércia na nossa existência?

não quero aqui responder a essa dúvida, é um questionamento quase retórico de compreensão dos movimentos, inertes. mas o que isso tem a ver com a dor e a ferida de amfortas? é algo pessoal, não menos arquetípico.

a ferida dói, restringe e em algum momento pela própria deusa da necessidade – ananke – cria-se um movimento de desamparo dessa ferida, já não se pode mais e ela se rompe com parsifal que cura e destrona esse rei ferido. e quem cura e destrona uma ferida? seria uma nova fera? uma força vital?

e quando é que ela, essa fera surge? 

eu me perguntava profundamente onde estaria essa fera que rompe, que destelha, que amaldiçoa a dor ou que sem querer a faz desaparecer? não há uma resposta, mas a dor segue em permanência, êxtases e desaparições.

segui a leitura do livro de jung, e sem nada mágico encontrar, me deparei com o mito de prometeu e epimeteu, irmãos. esse prometeu, do autor suiço spitteler entrega-se belamente à própria alma, um dos livros mais mágicos que já li, e dentro dessa doação também vive uma ferida longa e dolorosa durante toda a sua vida. por outro lado, seu irmão, epimeteu , realiza-se no inverso, no mundo das coisas, sem sua alma, o que também lhe provocará uma não entrega genuína aos objetos do mundo. esses polos são nocivos ao próprio existir do mundo.

há um momento em que o então rei epimeteu tenta salvar seu irmão das dores do mundo, ou seria das dores de não estar no mundo?¿, mas prometeu lhe nega a ajuda com desdém e seu irmão lhe contesta:

“em verdade pareces necessitado de maior punição, pois não lhe basta a presente lição de teu destino.

e assim falando sacou do bolso um espelho e tornou-lhe tudo claro desde as origens e foi muito eloquente e soube de todos os erros dele.”

jung escreve que essa cena é uma ilustração bem apropriada das palavras de jordan, o outro autor que ele utiliza na sua investigação sobre o material que já havia sido elaborado sobre os tipos psicológicos, “se possível a sociedade deve ser agradada, ao menos deve ficar maravilhada; e, se nenhum dos casos for possível deve ser importunada e chocada.”

é aqui em que surge a potência da aparência de um certo tipo de extrovertido, que surge para seu irmão acompanhado de dois homens, que sem saber tenta blefar sua própria carência anímica através dos recursos do mundo dos homens, no caso, ser acompanhado de dois homens representando seu poder mundano de rei.

o caminho desses irmãos é arduo, um não percebe o outro, é repleto de experiências e equívocos, de alguma forma é também o sidarta de hermann hesse, de outra forma é permeado por doxa, por sophia, por leão, cachorro, são tantos seres, um cordeirinho. a experiência é necessária e a leitura me fez sentir lisergicamente atravessando essa suiça dos 1900, com essas figuras míticas gregas e na veia sentindo a américa do sul, o brasil, que se diluía e se esperançava num verde da bandeira mesclado com a minha busca dessa tal esperança em pandora, plena época de eleições polarizadas (ano 2022)

talvez uma identificação permissiva me atraía ao autor, talvez as citações de jung sobre a bela aparição da alma nesse livro, e seu diálogo com prometeu. seriam infinitos talvezes e porquês e paraquês que me atraíram ao livro de spitteler.

de uma dor insolúvel nasce o comentário, sempre sagaz e doce do meu analista, o zé, primeiro me aproximo do livro seis das obras completas de jung, o tipos psicológicos, divago incessantemente e jung me surpreende em cada capítulo de investigação. nasce uma ciência e uma ananke, me acerco aos irmãos prometeu e epimeteu e sou tomada pela mais bela leitura deste ano, irmãos que são um, atravessados pelas imagens do consciente e da psique, num espaço olímpico, e muito europeu. não peço deixar de lado as dores de uma colonização e menos ainda de um período que antecede ao holocausto. contemporâneo de nietzsche, e vindo de uma doçura de palavras e imagens que de alguma forma pertenciam também ao meu momento – spitteler e nietzsche e a bela berna.

há um tempo que me questiono sobre a inércia pela qual fui sugada, como quase um buraco negro, mas era uma roda eterna onde o caminhar jamais me deixaria sair desse círculo constante. um eterno ir ao mesmo lugar. mas algo, talvez uma necessidade vital, faz com que esse circular inerte deixe de ser e eu sei que isso acontece em algum momento.

de alguma forma eu sabía que aquele livro, tipos psicológicos, merecia a leitura naquele momento – sigo nele, pragmaticamente acompanho os passos do autor, contrariando toda indicação de leituras e estudos da minha especialização. inerte, dentro dessa leitura, algo me fez sair e voltar à ficção, ler o livro de spitteler. ananke?

no meio do caminho tinha um sonho, tinha um sonho no meio do caminho

alguns dias antes de iniciar essa leitura sonhei e acordei efusiva, nele eu contava a um grupo de mulheres, que realmente haviam vindo a minha casa uns dias antes, que eu sabia que tudo já estava escrito e que era só ler ali, e mostrava o telefone para elas, dizendo que  eu sabia que no texto estava a solução, e muito contente eu mostrava no celular uma página, dessas como de resenhas na internet. uma dessas mulheres, na vida real, é uma psicóloga que pouco havia trabalhado como psicologia clínica e havia me dito que eu deveria voltar a estudar psicologia, porque as especializações que faço no máximo me permitiriam ser uma terapeuta holística ou coaching (isso foi dito com desdém na vida real). no sonho eu muito contente dizia a ela que era só ler, ali estava tudo claro!

recebi o sonho divertidamente, mas aos poucos me dei conta da sombra da academia, da graduação de psicologia que tranquei este ano e do quanto eu estava contente de que não precisava muito, ao menos no sonho, para solucionar as coisas (essas coisas não eram tão específicas assim, afinal era um sonho). o zé da minha cabeça me alertou para ter cuidado com a necessidade das compensações, o mesmo sonho que me animava a achar que tudo estava resolvido naquelas leituras infinitas, me paralisava, me escancarava o medo da psicologia e a idolatria das soluções num texto, no intelecto, o que per se não existe, penso hoje.

a tomada de consciência pode parecer algo linear que alguns a definem de forma causal, fiz isso, li isso, encontrei aquilo, passei por mais este e me dei conta, óbvio. na minha experiência ela não surge assim, e não ouso dizer que tomei consciência alguma, longe disso, como se tomar consciência fosse tragar um gole de verdades, tão inebriante. como a bela alma, ou a bela consciência no livro de carl spitteler, elas nos circulam, nos orientam, por bem ou não. mas o livro do premio nobel suíço foi de uma beleza de texto e espaços entre as imagens que me levavam a percorrer um caminho severo e de encontros marcados pela necessidade dos fatos também na verdadeira vida [ termo lindo que em outro momento conto sobre seu autor ]

prometeu e epimeteu de carl spitteler é uma experiência num caminho arquetípico pela beleza.

ao terminar a leitura e um pouco de pesquisa sobre carl spitteler (seu discurso político polêmico, a tradução brasileira realizada por um poeta que elevei durante anos da minha adolescência manuel bandeira) retomo aos estudos de tipos psicológicos.

perceber que a alma chama, em chamas, e aprofundar no saber que vem de uma necessidade física de estar no mundo. mais próxima de uma consciência desse estar no mundo me faz viver, saltando da roda do eterno retorno, ora voltando, ora pirulitando por aí, como a dança bela escolhida para a capa do livro editado no brasil – uma obra de pablo picasso.

falando em brasil, durante essa leitura é importante dizer que também tomamos um pouquinho de consciência, espero, sobre nossos passos coletivos de saber que somos um, que perdemos um mundial, de que messi uniu a torcida de um país ainda polarizado e que aos poucos o verde da bandeira se dilui em esperança!

é bom lembrar de pandora nessa existência, um pouco de esperançar, sem ingenuidade. depois de muito isso tudo enviei um material artístico e recém criado para uma revista, esperando sua publicação, e a ferida que é dor que deveras sinto, tem menos potência agora.

 


alguns adendos

  • manuel bandeira esteve em um sanatório na suíça entre 1913 e 1914 – em 1961 fez a tradução do livro prometeu e epimeteu

A ESTRELA DA MANHÃ

Eu queria a estrela da manhã
Onde está a estrela da manhã?
Meus amigos meus inimigos
Procurem a estrela da manhã

Ela desapareceu ia nua
Desapareceu com quem?
Procurem por toda à parte

Digam que sou um homem sem orgulho
Um homem que aceita tudo
Que me importa?
Eu quero a estrela da manhã

Três dias e três noite
Fui assassino e suicida
Ladrão, pulha, falsário

Virgem mal-sexuada
Atribuladora dos aflitos
Girafa de duas cabeças
Pecai por todos pecai com todos

Pecai com malandros
Pecai com sargentos
Pecai com fuzileiros navais
Pecai de todas as maneiras
Com os gregos e com os troianos
Com o padre e o sacristão
Com o leproso de Pouso Alto

Depois comigo

Te esperarei com mafuás novenas cavalhadas
comerei terra e direi coisas de uma ternura tão simples
Que tu desfalecerás

Procurem por toda à parte
Pura ou degradada até a última baixeza
Eu quero a estrela da manhã.

  • hyldon é um nome grande, uma canção suave para esquecer das dores do mundo por alguns segundos

 


  • e faço do texto de roland barthes, sobre suas referências no livro fragmentos de um discurso amoroso, minhas amorosas palavras, idas e vindas de amor, minhas notas prediletas estão em rosa choque!

“o que vem dos livros e dos amigos aparece às vezes na margem do texto, sob a forma de nomes para os livros e de iniciais para os amigos. as referências dadas assim não são de autoridade, mas de amizade: não invoco garantias, lembro apenas, por uma espécie de saudação dada de passagem, o que seduziu, convenceu, o que deu por um instante a satisfação de compreender (de ser compreendido?). deixou-se, portanto, esses lembretes de leituras, de escuta, no estado quase sempre incerto, inacabado, que convém a um discurso cuja instância não é outra senão a memória de lugares (livros, encontros) onde tal coisa foi lida, dita, ouvida. porque, se o autor empresta aqui ao sujeito apaixonado a sua “cultura”, em troca o sujeito apaixonado lhe passa a inocência do seu imaginário, indiferente aos bons costumes do saber.” fragmentos de um discurso amoroso – roland barthes

  • uma citação sucinta sobre o livro, em tipos psicológicos de carl gustav jung

O Prometeu de Spitteler establece um ponto de mudança psicológica: descreve a separação dos pares de opostos que, antes, estavam juntos. Prometeu, o artista, o servidor da alma, desaparece do meio dos homens; a própria sociedade humana, obediente a uma rotina moral sem alma, sucumbe a Behemoth, às consequências inimigas e destrutivas de um ideal obsoleto. Em tempo próprio, Pandora (a alma) cria no inconsciente a joia redentora que, no entanto, permanece inacessível à humanidade porque esta não a entende. A mudança para melhor só acontece pela intervenção da tendência prometeica que, graças à intuição e compreensão, leva, inicialmente poucos, mas depois muitos, a uma tomada de consciência. E claro que não poderia deixar de ser que esta obra tivesse suas raízes na vivência íntima de seu criador. Mas se consistisse apenas numa elaboração poética dessa vivência puramente pessoal, faltar-lhe-ia em grande parte a universalidade e durabilidade. Como, no entanto, apresenta e trata de coisas não apenas pessoais, mas de problemas coletivos de nossa época, tem valor universal. Mas, em sua primera aparição, teve que esbarrar na indiferença dos contemporâneos, pois a grande maioria deles sempre tem a tarefa de manter e louvar o presente imediato e causar, assim, aquele resultado fatal cuja complicação o espírito criativo e previdente tentou resolver.

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