nao, não digas nada, supor o que virá…
o que dizer de trabalhos e os dias?
e o poeta finge que é dor, a dor que deveras sente.
assim, em poucas mínimas palavras foi traduzido por Pessoa aquilo que me espasma, me anseia, me arrebata. mentir?
patologia: a vida, tratamento: a arte. simples seria se doctora B. pudesse atravessar a alma pelo telefone e entender meus anseios, medos, necessidades, mentiras e sanar a mim. como se ser médico fosse simples.
como atender por um telefone? como amar por um telefone? como viver por um telefone?
circadiano é o ciclo, ataque cardíaca é a sensação térmica da alma. que sente a dor. zé, quem insisto em narcisicamente de chamar de meu analista, falava de pan, e no fundo, sabe que nem sempre é pan, que se pan aqui, pan acolá, de vez em vez “será arte? será arte?”
tão sensillo, e no clichê, tan lejos, tan… tão complicado.
se o mundo do trabalho é dos que mais afeta psiquicamente o universo, o que seria fazer arte no linkedin? trabalhar?
fui ler a primeira parte de “trabalhos e os dias” de hesíodo, um texto clássico que ficou parado nos meus anseios. mergulho em Pandora, aquela mesma que é “apresenteada” a Epimeteu, que se abre, e que foi feita por Zeus como um presente, manufaturada por Atena, Afrodite e Hermes. sim, os gregos desses tempos, o patriarcado, a mulher como algo suspeito. superamos? integramos?
me provoca ira, talvez. mas o foco não era nisso, o foco era em ambos nascimentos, o nascimento do trabalho, algo que os mortais, de acordo com esse universo grego desse tal tempo, tomam como necessário para obtenção da vida. algo que antes os imortais gregos não precisavam, pois tinham suas tarefas, mas eram imortais, não precisavam trabalhar…e aqui vem hesíodo miticamente justificar o trabalho.
fato, sou mortal, trabalho e estou em profundo desacordo psíquico, físico, circadiano com as horas e os dias. o desacordo é torturante, dentro, trapaceia minhas horas vagas, minha vida social e pan, pan, pan…. será pan? será arte?
Pandora leva o píthos (jarro) onde se guardaría bíos (alimento), mas lá estavam kaká (males). foi aberta a tampa, e depois dos males escaparem ela fechou o jarro com a “Elpís” dentro. ao mesmo instante ser temor e esperança, o texto que li da mary lafer* sugere que a melhor tradução seria expectação, a espera que pode se referir tanto a algo bom, quanto mau. medo, confiança…segurança, esperar…
dos males abertos ao nosso mundo, saiu desse jarro, Ponos, Eris, a discordia é sua mãe – “a su vez Eris odiosa engendró a Ponos que provoca dolor”
o que fica dentro do jarro, o que move a gente humana? o que faz trabalhar, tipo titãs, agora referência aos míticos da música brasileira, comida? o que é comida e a quem ela serve? trabalhar por comida, vida?
trabalho é um tema psíquico, alimenta? será arte. será arte.
- trabalho e os dias – Hesíodo – traduçao de Mary de Camargo Neves Lafer
- Ponos (diciogriego)
- Traduzir-se – canção sobre o poema de Ferreira Gular – aqui cantada por Fagner e Chico Buarque
- Comida – canção dos Titãs – grupo de rock brasileiro
- Fernando Pessoa – poeta português
