dar-se conta
.estudei cinema, e era encantada pelas aulas da malu, hoje conhecida como maria homem. naquela época, mais que assistir aos filmes, para os quais eu não dava o tempo, ou nem o tinha tão disponível para isso, me perdia nas lógicas das imagens, nas suas formas comunicacionais. hoje penso no mundo interno que se desenhava através daquelas leituras. psicologias, antropologias, sociologias, estéticas, teorias da imagem, comunicação.
quem diria, quase 20 anos depois, o que me diverte, entre tantas outras coisas, assistir aos filmes que o waldemar indica nas supervisões clínicas de casos, os que as outras analistas sugerem, os que surgem nos encontros e estudos sobre sonhos. certas vezes um ou outro me chama mais a atenção, por um mero acaso sem compromisso do olhar pensador, mas o intuitivo se faz acontecer, e eis que me divirto, vendo filmes hoje, com um olhar diferente, mais vivido e com outros cuidados e atenções, fato, passando bem e menos rígida!
hoje, precisamente hoje, assisti ao mine vaganti, não faz falta uma sinopse sobre a loucura de um pueblo e de uma família, dos segredos intergeracionais, das relações entre irmãos e para ajudar, uma família italiana, algo disso conheço. entre gerações e irmãs, neste caso, foi o tia virgínia que assisti semana passada, três irmãs e a bela tia virgínia, solteira e sem filhos é ela que vai cuidar da mãe com uma grave demência, vera holtz no papel daquela que desafina a desordem da mais patológica normalidade da vida. esse filme chegou por uma aproximação com a ju, que participou de um evento sobre o filme e me deixou narcisicamente curiosa de ver quem seria essa tia virgínia!
não menos importante que esses casos de famílias, irmãs e irmãos, havia o cenas de um casamento, que andou a me perseguir. não bastasse a série, sobre a qual escutei analisarem em um podcast com um psicanalista, fui em busca da versão do bergman, a primeira versão. algo me atravessou e acabei querendo assistir outro filme do bergman, honestamente, andava sem paciência para um filme tão profundo sobre separação de casais, sem saber do que se tratava, tinha disponível de fördömda kvinnornas dans. ironicamente é um curta sobre a dança de três irmãs, ou ao menos duas, uma terceira que é uma criança supostamente livre daquelas outras mulheres, e a quarta, a morte. seus conflitos geracionais, a morte e o silêncio. belo, sedutor, doce e violento na sua sutileza. segui minha visitação de filmes sobre fraternas.
cenas de um casamento cruza meu caminho, está em cartaz no grande teatro de barcelona, com darin, algo me diz irei assistir. mas talvez tenham outros bergmans que quero revisitar, visitar, deleitar. amanhã, dia de perder-se em um trabalho.
poderia escrever mais sobre as relações entre irmãos, irmãs, mas prefiro soltar algumas imagens de uma cena entre os dois irmãos italianos de mini vaganti, onde no meio de uma discussão sobre as situações familiares e sociais às que se submeteram, ou das quais emergiam, surge a frase “temos que brigar entre irmãos porque o que é dado a um é tirado do outro”. saliento, nada do que é dito, escrito é em termo de concordância, discordância, bem ou mal. são como são, naqueles instantes, naquelas obras e qualquer outra identificação pertence a cada idiosincrasia vital.
não quero aqui atravessar os campos, as mitologias antigas, os casos modernos de tantos irmãos e irmãs. contar casos de atravessamentos intergeracionais de afetos e intensidades caóticas, silenciadas pelo próprio mundo e explosivas nas almas. apenas deixo essas imagens das artes, dos movimentos, para que não se percam as sutilezas de momentos de intenso prazer, a vida, a psicologia e as imagens… que bela vida!
p.s. a dança das mulheres condenadas é o nome do filme de bergman em português
as palavras duras, diretas, confrontivas dão a votla a sua própria simbiose entre irmãos, o universo está nas artes, enquanto que a complexidade e as incertezas vitais bailam com essas imagens de filmes. o baile, não menos duro está nas imagens a seguir trazidas por bergman, no filme que também recebeu no brasil o nome de “baile das ingratas” (provavelmente pela sua trilha ser um balé musicado de monteverdi como se lê neste texto). de alguma forma o inframundo atravessou este texto que uniu essa trilogia de filmes sobre as relações entre irmãos. por outro lado, parece que falam disso, e são sobre isso, mas e sobre relações intricadas de projeções e partes perdidas, esquecidas, metades perturbadas, roubadas, raptadas, cooptadas entre gerações, entre almas num afã da consciência se crer dona do mundo?
segue uma imagem do filme de bergman, coreografado com dona feuer e outra do filme de fabio meira com a maravilhosa vera holtz





