COMO laranjas COMO um ato sagrado.

COMO laranjas COMO um ato sagrado.

As corto em pedacinhos — antes descasco — com uma faca de cozinha. Dessas que cortam as carnes que alimentam. Assim como as laranjas, dias desses disse que todo sonho é sagrado, e disse de coração, vindo a reflexionar sobre isso, a posteriori. Como todo ato de reflexão, um postrar-se, o passo atrás, igual ao movimento que se faz diante de muitas divindades.

Há divindades com as quais se baila, Neil Young seria uma delas?

A dança inicia no coração, segue no corpo que se move com acordes, cordas, e o sentar-se, ato tão passivo, quase como o de comer as laranjas. Há de sempre lembrar que comer laranjas nunca foi passivo.

A canção de Neil Young que primeiro bailei em 2026 é Dreaming Man. Eu não a escolhi — no sentido de entrar na plataforma Qobuz e colocar para tocar — temos em casa dois discos de Neil, em nenhum deles está essa canção que tanto me alimentou há anos atrás. Mas ela tocou.

Hoje Ela — a canção — retornou a me alimentar, assim como a Laranja suculenta e doce que como exatamente agora. Como as laranjas devagar, despacito! Poc a poc!


Quando disse que todo sonho é sagrado, não foi por acaso. Não me lembro de ter lido isso nas pesquisas da psicologia analítica de Jung, assim como não me lembro de ter escutado isso dentro do nosso conhecimento ancestral brasileiro. Ainda que tenha sido assim! Cito apenas essas duas formas de olhar para os sonhos porque são as que mais atravessam a dança que venho sendo no planeta. Sabemos que há muitos tipos de sonhos: sonhos que se prestam aos dias, ao grupo, ao universo, ao ato. Há sonhos para o silêncio, sonhos para serem comunicados às jardineiras, coletoras de reciclagem e para serem contados a uma terapeuta.


Fato é que sim, a vida me mostra que todo sonho é sagrado, e a consciência não dá conta de toda essa sacralidade, parece tornar a vida vivida mais ordinária e palatável quando se esquece dos sonhos.Talvez mais… simples, domesticada no sentido das necessidades: tirar a neve da frente da porta, o pó do armário do banheiro, a crosta de cal da água na pia da cozinha. Regar as plantas. Falácia.


E, de repente, a vida te faz lembrar do sonho. Você o anota, vez e outra, no telefone, num caderno de sonhos, e esquece novamente de olhar para ele, o Sonho. Mas, em outras vezes, o Sonho não deixa você esquecer que há sonho, e que esses sonhos são antigos. Antigos, repito, de outras eras, outros carnavais, como diria minha avó!


Então, lá, antes de tudo isso, estava o sonho. E a vida que parecia estar passiva, se destrambelha, porque você simplesmente esqueceu do sonho, por onde Ela, a Alma, conversa com a gente. E aí não adianta cuidar da neve, do pó, da cal e nem regar as plantas. Algo se destrambelhou!


Quando, pelos anos de 2004, fomos entrevistar Vasco Barioni para um documentário, a frase dele inicial nunca saiu da minha caixola:

“Tudo começou com um sonho.”

Ele, dentre muitas outras realizações, construiu um cinema em São Roque para 1400 pessoas – o Cine São José. A foto abaixo foi tirada pela Luisa Vilhena e é do espaço há uns anos, com meus pais na imagem projetada e meu pai observando.

O sonho, o sagrado e as laranjas.
Acredito que sempre que ouvi a canção “Amor de Índio”, de Milton Nascimento, sentia que lá no fundo escutava que todo sonho é sagrado — ele que está dentro do sono — do descanso, da sabedoria que nos devolve a vida para viver.


“Lembra que o sono é sagrado
E alimenta de horizontes
O tempo acordado de viver”

                                        

Sagrado é o tempo do sono e o tempo de viver. Não preciso escrever muito sobre a profanação do sono em nossos tempos: as luzes das telas acesas, das cidades, clareando o nosso olhar do céu estrelado, apagando de nossa vista toda a escuridão. A noite também faz parte dos nossos sonhos ancestrais, a escuridão, desvendar os caminhos quando há lua cheia e retirar-se quando ela torna-se nova.

Agora, parece que todo dia é noite de consciência iluminada, mas Ela — a Consciência fica pequenininha sem a escuridão, sem a imensidão do universo; o que a gente vê fica mais limitado. E aí a gente deixa de lembrar do sagrado, até que Ele venha e arrebata, numa dor destrambelhada (essa palavra tá dando bola!)


Sagrado, para Otto 1, também está no inacessível aos conceitos, inefável. Assim, uma hora de terapia semanal, ou mais, nunca dará conta do universo que se expressa em nós. Mas a escuta poética, a escuta fazedora de vida, o que vez e outra expresso na arte terapêutica, chamando-a de clínica biopoética, envolve. De um vaso alquímico entre telas, onde a vida acontece em uma pequena parte do tempo, ela se espalha como um “hilo”, como um elo, como um fio, amarelo… Amando por aí. Assim também é a clínica biopoética, analítica…sagrada.


Na prática: há sonhos que trazem seres que havíamos esquecido, que já sonhávamos com eles, que, nas projeções sombrias (ou não) da vida, já aconteciam antes dentro e fora de nós. Por isso, as pessoas que conhecemos e nos aproximamos nos presenteiam tantos sentidos. Muitas vezes nem gostamos de olhar para essas memórias; outras vezes, nos semeiam vida vivida!


Dando forma a essas palavras um pouco vagas, apenas quero dizer que o resgate de sonhos antigos, os nossos mesmos, aqueles anotados e abandonados, pode nos reanimar a viver experiências tão essenciais em nossa alma, e sem as quais a vida deixa de ser suculenta e a consciência torna-se estreita, perigosa inclusive, como se fosse uma metade, também da laranja, afastada de nós!

Que curioso, né? Nunca havia pensado na coniunctio alquímica de Fábio Jr. em A Metade das Laranjas, mas isso fica para outro texto (quando escrever sobre o livro Abreação de Jung, por exemplo!).

A laranja!
A laranja faz parte de uma longa história familiar e universal, a qual requer tanto mais tempo e dedicação que, por enquanto, a deixo comigo, mas brinco com a frase de Pessoa para todas as minhas amigas e amigos!

“Come chocolates, pequena; Come chocolates! Olha que não há mais metafísica no mundo senão chocolates. Olha que as religiões todas não ensinam mais que a confeitaria. Come, pequena suja, come! Pudesse eu comer chocolates com a mesma verdade com que comes!”

Eu diria: ah, Pessoa, Álvaro de Campos, há sim, há laranjas!

Come laranjas!

E, dessa forma, convido a navegar um pouco para além do líquido amniótico, que nos envolve, nos acolhe, como um chocolate gostoso, um pão de queijo quentinho. Convido a comer, a viver a sacralidade, sonhar e comer laranjas, a suculenta consciência de comer laranjas!


E, para quem quiser, deixo esse livro de dica; em outro momento, a gente conversa sobre ele! O Feminino Aprisionado nas Frutas – Uma interpretação junguiana de Inácio Cunha

O Feminino Aprisionado nas Frutas



  1. aproveito para deixar a página do Arsgravis do grupo de estudos sobre simbologia aqui de Barcelona (UB) https://www.arsgravis.com/lo-santo-segun-rudolf-otto/ ↩︎