What Are The Factors That Heal? wolfgang giegerich

Há alguns livros que solicitam leituras antes do início de uma nova parte no percurso de analista em psicologia profunda. What Are the Factors That Heal?, de Wolfgang Giegerich, é o livro verde, do sinal verde nessa direção.

Verde é a cor da instituição pela qual vou me qualificando. Quanta dificuldade em mergulhar nessa cor esmeraldina! Segue a secura entre a liquidez dos matizes esverdeados de cada passo em direção a ser o que se é. Segue-se sendo ser, e o seco torna-se líquido, fluir.

Verde é a cor da “portada”, como se diz “capa” aqui nas Espanhas. O livro de Giegerich surgiu de um vídeo do analista e sociólogo Stefano Carpani. Nele, Stefano sugere que é um livro imprescindível para aqueles que se aventuram na densidade dos atendimentos clínicos. Dessa forma, abri o livro.

Se fosse uma canção, What Are the Factors That Heal? seria I Shall Be Released, de Bob Dylan. Coincidentemente, ontem assisti novamente I’m Not There, de Todd Haynes, 17 anos depois de ter visto esse filme mágico em São Paulo. Mas este texto é sobre o livro; pretendi fazer um resumo poético-didático para registrar como Giegerich apresenta a vivência de ser psicoterapeuta em relação aos aspectos de cura, mas o livro é muito detalhado para um resumo, assim, resumi dois capítulos e faltam os outros, mas deixo aqui o que foi feito, porque do meu pensamento I shall be released!

“Heal” tem uma relação etimológica com o “tornar-se inteiro”, e a cura com o tempo do cuidado. De certa forma, ambas as intenções parecem circundar o trabalho da psique e a relação terapêutica e/ou analítica. Tudo é e não é; nada é o que parece… aparece ser!

Vamos ao livro verde de Giegerich!

Giegerich diz não publicar casos e parece ter uma opinião crítica sobre o quão psicologicamente contraproducente pode ser publicar casos (“?! Para mim, cada caso é um caso!”). Para ele, assim como para Jung, “é a menor parte da psique, e em particular do inconsciente, que se apresenta na sala de consulta médica” (p. 9).

Essa frase de Jung, acredito, precisa muitas vezes ser recordada. Como analisanda, integrando supervisões clínicas, casos e experiências suscitam esse olhar perigoso de que ali há algo além das projeções de uma terapeuta; por isso, recordar a pequenez.

Giegerich comenta que aquela que se apresenta na sala de consulta é a psique, mas é uma parte pequena da imensidade da integralidade do indivíduo. Desde seu ponto de vista sobre a relevância terapêutica, o livro amplia o significado do que é o “curar” no reino da vida da alma.

O que traz a cura é misterioso, e das primeiras páginas até a última é o respeito a esse mistério que é enfatizado, percebendo o paradoxo das pretensas intervenções do analista. Nessas páginas, ele salienta que o que é inerente à alma não pode ser alterado pelo lado de fora. No princípio do livro, o autor cita Guggenbühl, partindo de uma ideia de Heinrich Fierz, na qual menciona a constelação do arquétipo do curador como algo a ser constelado para que a cura se dê em existir. Em seguida, Guggenbühl cita o quanto esse arquétipo da cura, que também é o arquétipo da doença, é o fator que cura, e que, para isso ocorrer, ele deve ser constelado no paciente.

Para Giegerich, isso provoca uma inflação e mistificação do que é, no fundo, um real mistério, hipostasiando e personificando o mistério em um “não humano ou supra-humano”, no caso, a imagem do arquétipo do curador.

A questão aqui não é discutir o uso de conceitos tão complexos (como arquétipo) no texto de Giegerich, que conhece muito bem essa terminologia e suas tonalidades. Acredito que não há como fugir do tema da mistificação da cura nos processos terapêuticos e, diria eu, analíticos. Para nosso autor, Giegerich, a cura permanece como mistério: Asclépio ou Quíron são poesias. Neste texto, me arrisco a citar e dar algumas interpretações sobre o livro dele, ou seja, nada é definitivo no campo interpretativo; tento soltar minhas ataduras da intenção de resumir o livro e pretendo torná-lo também parte minha.

Paradoxalmente, para Giegerich, o mistério permanece ao dizer que é a alma que cura, e tudo o que a psicoterapia pode fazer é tentar remover certos obstáculos para que ela, a alma, cure a si mesma e prepare o lado da consciência para uma atmosfera na mente que pode conduzir a inacessível alma a tornar-se ativa, num sentido de autorregulação. Aqui, Giegerich salienta que isso pode ser o que Heinrich Fierz tentou sugerir com o termo constelar, citado anteriormente.

Vejo que, para Giegerich, a beleza e o cuidado estão no fenômeno direto e no mistério insondável, experiências que não se excluem, apesar de parecerem paradoxais. É sobre isso o livro.

A cura se apresenta como um efeito extra do esforço terapêutico. O livro cita diversas possibilidades de cura que acontecem em paralelo ao processo terapêutico, como, por exemplo, uma possibilidade dada pela própria sincronicidade, que Giegerich parece sugerir estar ao lado do campo da magia (mas aqui é um tema caro a mim, e não entrarei em detalhes, apenas o cito!). Giegerich menciona outros exemplos de processos, como a ideia de epistrophê de Hillman, a beleza do soul-making em encontrar os deuses nas doenças. E, não menos importante, cita Freud e o processo transferencial de lembrar, repetir, trabalhar através; o senso de Gemeinschaftsgefühl de Adler, o poder da comunidade; assim como o senso de realidade kafkaniano também citado por Jung, ao perceber o que há no mundo além de si mesmo. A ideia do Self de Jung, com sua autorregulação, mas sobretudo Giegerich cita uma carta na qual Jung escreve sobre seu trabalho estar principalmente interessado não no que concerne ao tratamento da neurose, mas mais na aproximação do numinoso. Para ele, de fato, essa aproximação da experiência do numinoso é a real terapia e, quanto mais se atém a essa experiência, mais se liberta do caminho patológico (p.16). Giegerich também menciona os rituais, mitos, contos e procedimentos mágicos, nos quais o autor inclui o I-Ching (aqui ressalvo igualmente com sincronicidade, pois, para mim, parecem aproximar-se de algo ao qual nossa consciência ainda consegue assimilar na forma de experiência espaço-temporal e que talvez por isso, ou por outros aspectos, muitas vezes nos aproxime do numinoso no sentido de mistério e incompreensível fora da lógica da mecânica quântica). Como eu escrevi, endosso que o colocaria mais próximo das aberturas para a sincronicidade, mas essa é uma outra questão sobre a qual não quero entrar, pois não pretendo estabelecer juízos e valores sobre esses modos e técnicas, sendo bem sucinta, aos quais Giegerich cita no livro, embora parte de mim não tenha resistido e já tenha escrito!

Giegerich escreve que esses conceitos de cura poderiam ser muitos a serem citados, mas sua intenção parece ser expor a diversidade. O que ele julga diferente em relação a Jung é que, a seu ver, o processo terapêutico pode ter fases concomitantes e não estágios que pressupõem que um anterior tenha sido superado. Da minha parte, com pouca experiência e escuta de casos — mas alguns —, saliento, junguianamente, a singularidade de cada caso e também apoio a possibilidade do solapamento de estágios em determinadas áreas da experiência da vida. Pode parecer abstrato esse meu olhar, mas vem da experiência pessoal de que sinto que certos estágios, ao serem saltados, esquecidos ou menorizados, parecem tender a retornar na espiral da experiência humana para uma nova aproximação e possibilidade de que uma nova consciência seja criada sobre eles.

Cito os três principais fatores que tendem a diferenciar esses “métodos” para Giegerich, o que considero importante para uma observação mais analítica:

  • Situação particular do paciente, caráter da doença ou situação psicológica.
  • Temperamento, tipologia, comportamento habitual do terapeuta.
  • As ferramentas do treinamento desse terapeuta (estudos, afiliações e/ou orientação teórica).

Para Giegerich, está claro que nem todos os pacientes se beneficiarão do mesmo tipo de tratamento. Acredito que singularidades também carecem do tempo correto para acontecerem, e por isso o tipo de tratamento para cada um.

No “livro verde”, como o chamo, sobre os fatores que curam, tudo é mais detalhado e profundo do que as notas que tomei e deixo neste texto. Giegerich as divide em três fases, que são também os capítulos centrais do livro, e isso o torna interessante em sua linear circularidade:

• Mudanças de Atitudes: A primeira parte é sobre o letting go e releasing oneself — a fase do “deixar ir” e de “soltar a si mesmo”, no caso, o próprio paciente e também o terapeuta.
• Trabalho Metódico: A segunda parte é sobre a cura através do “trabalho na consciência” no paciente, focando nos complexos (doenças) e nos conteúdos e mecanismos de desordens (também neuroses).
• Condição do Método: A terceira parte é sobre o novo, o movimento como tal (eu brincaria aqui inclusive de como Tao), aqui é onde se descreve a própria teoria psicológica e o que poderia, paradoxalmente, ser chamado de método, mas que basta uma leitura dedicada para perceber que a palavra método não é conveniente, aparentando uma lógica do pensamento, que não é o caso.

Esses três pontos serão abordados delicadamente por Giegerich, mas ele cita que o principal a ser abordado antes é a personalidade do terapeuta (aproveito aqui para dizer que tendo a gostar mais da palavra analista, por diversas razões, porém acredito que o uso de terapeuta, além de ser o termo do autor, é também conveniente para a apresentação do seu olhar no livro).

Giegerich também diferencia dois tipos de terapia: uma semântica e outra analítica. Uma sobre a dimensão da maturidade do “eu” (e não ego) e outra do soul-making de Hillman ou individuação no sentido junguiano, ambas diferentes, mas similares. Admito aqui não ter condições de detalhar o significado das diferenciações de Giegerich sobre Hillman e Jung. De alguma forma, no fundo, parecem ser o mesmo caminho; em outros momentos, distintos, mas iguais. Essa ainda é uma questão para mim, um complexo envolto a olhares, escutas, vivências e percepções sobre ambos. Algo parecido como a diferença entre a apresentação do Puer por Von Franz ou por Hillman. Ou seja, caso alguém leia este texto e queira conversar, estou aberta e interessada em dialogar sobre Hillman e Jung, sempre!

O livro segue aprofundando-se em cada um dos temas apresentados acima e apresenta o cuidado do encontro entre as almas, do paciente e a da terapeuta, como uma das partes, ao meu ver, mais belas da reflexão de Giegerich. Comenta sobre o caminho de que as palavras nos levam à esfera do mental, como este texto aqui, do quanto a linguagem é teoria.
A humanidade e o processo temporal também são relatados, assim como a realização da alma. O que tudo isso tem a ver com a vida? Acredito que muito, para além da teoria, deixar-se ser tocada e tocar a alma da outra pessoa é algo delicado, profundo e fortemente assertivo. São minhas palavras e percepções. Giegerich expõe no livro todo o cuidado dessas experiências, seus vieses e previsibilidades, entrepassados por aquilo que é essencial, o respeito ao mistério, sem abrir mão da ação metódica entre essas almas que se correspondem no ambiente terapêutico. Tudo determina e encaminha para a cura, ao mesmo tempo em que não são as intervenções diretamente responsáveis por ela.

Giegerich não cria expectativas, apresenta o fenômeno desde seu olhar. Outro campo que o autor apresenta é o “release”: deixar-se ser, permitir-se, soltar-se de cada momento de um processo terapêutico, como fase e como concomitância de ação de encontro anímico. Cita tanto Jung quanto Freud ao valorizar a novidade e o presente que cada paciente traz ao espaço da terapia, ao terapeuta e ao seu próprio processo sendo um dos fatores. Copio aqui ambos os trechos, em tradução minha:
“Que tipo de mensagem o paciente está trazendo para mim? O que ele significa para mim?” (p.41) Jung em MSR
“Em psicanálise tem existido desde o princípio um inseparável limite entre cura e pesquisa. Conhecimento traz o acontecimento terapêutico. É impossível tratar um paciente sem aprender algo novo…” (p.42)
Curiosamente, nesse capítulo grifei o comentário sobre deixar que o sentimento prevaleça como presença real e não por empatizar os sentimentos que o paciente tem (p.41). Ressalvo esse detalhe porque a experiência torna necessário relembrar o quanto isso difere de algumas atitudes terapêuticas e o quanto isso é parte do respeito pela liberdade da alma e não uma terapia de manipulação ou adaptação normativa. Eis um ponto, detalhe, tão importante de nós dois, em valorizar a profundidade e o respeito de Jung.

Esse livro tornou-se um dos livros essenciais que me inventei antes de iniciar as práticas, recomendado pelo analista italiano Stefano Carpani, deslizando na leitura com cuidados. Em mim, práticas e formação aos poucos se misturam.

Releasing oneself!
Aqui o autor trata de diferentes maneiras que ele observa sobre o soltar-se, liberar a si.

  1. Soltar-se a si mesmo em confiança a outra pessoa, ao terapeuta
  2. Soltar-se a si mesmo (como terapeuta) no auto movimento da alma
  3. Soltar a própria doença da própria subjetividade dentro de um objetivo universal
  4. Soltar-se a si próprio, na própria natureza e essência
  5. Soltar-se a si mesmo dentro da própria patologia e da noção de si dentro da noção

Esse capítulo é incrível, cada ponto se apresenta, entra em paradoxo e conclui-se no próprio não normativo de “releasing oneself”. Do fundo do meu coração, Giegerich escuta Dylan? “I shall be released” é a canção de uma redenção superior à uma redenção religiosa, redemption song, Bob Marley. Enfim, aqui é Giegerich! O processo terapêutico não é uma reza por essa redenção, é o próprio soltar-se.
Vou copiar trechos do livro:

1- Soltar-se a si mesmo em confiança a outra pessoa, ao terapeuta

“A deeper, less tangible and thus more soulful form is to open oneself to the other person. Here is no longer this or that content that is shared, but one’s heart, one’s soul, one’s very self is opened to the other” (p.43)

“Confounding of having knowledge with ‘being conscious of’”

Giegerich tem uma visão sobre o segredo, que parece também concordar com a preservação dele no caso de ser embaraçoso, mas é sobre isso que ele se refere sobre ser consciente de. Por outro lado, ele cita que “se apenas eu sei meu segredo” este ainda está psicologicamente no estado de potencialidade, sem compromisso, não sendo realmente consciente. Ao tê-lo dito ao analista, está fora do controle e o faz ser um objetivo, uma verdade real. Sobre o segredo, Giegerich deixa uma nota importante, que a deixo aqui (p.44 FOTO).

Giegerich caminha na direção do outro, do sentido de comunidade, da necessidade de ao menos duas consciências necessárias para que um tema emocionalmente delicado torne-se psicologicamente consciente (p.45).
Nesse processo com o terapeuta “a alma” não mais insiste em fechar-se e manter-se como uma “anima alba”, mas se libera em direção a uma identidade de outro tipo, juntando-se a outra, isso seria a identidade e a identidade e sua diferença. É a abertura do “em relação com”. Nesse ponto, ele vai falar da linguagem, que é diferente, e também da diferença entre amigo e terapeuta, enfatizando que a relação terapêutica é a que funciona terapeuticamente. Com isso, a relação artificial e contra naturam é a que prevalece na sala de consulta.
“Ambas as pessoas na sala de consulta não são idênticas com as reais pessoas que são do lado de fora, em suas positividades”. Para ele, ali há uma relação em “negatividade”, entendo aqui positivo e negativo como polos. No caso, sendo psicológica ou relação de almas. Giegerich vai dizer que essa é o que convencionalmente é chamada de transferência.

Em seguida, há uma explanação detalhada sobre o processo de neurose, o qual, para Jung, parece não dar espaço para a autoregulação da alma. Esse movimento existe para Jung na alma saudável, que não é o caso em determinadas neuroses. E é aí onde Giegerich vai também trazer o movimento da descida ao inframundo, importante não para recuperar os tesouros e sabedorias que são reservados apenas aos mortos, mas para liberar-se a alma desse movimento circular. E aqui o terapeuta entra em um sentido de abstração, uma posição ocupada e separada do paciente e que o paciente entra em uma lógica própria na qual “independe” do terapeuta.
Aqui, a terapia aparece como ritual, oferecendo o vigor da experiência numa operação no campo invisível e não no substrato positivo, como geralmente o faz a medicina moderna. (p.51).
A presença integral e real do terapeuta, que será detalhada e explicada por Giegerich, é um importante fator curador. Caso o paciente realize um sandplay solitário, a ação será diferente. Embora essas ações criativas possam (e devem) ser realizadas, e nelas a figura lógica do terapeuta estará presente na alma. É uma extensão dessa figura na vida diária. É uma extensão fora, não um jogo solitário. (p.53).
Em suma, essa posição abstrata no campo anímico é o que mantém essa vicarius animae de uma forma implícita, ou seja, independentemente aqui se o terapeuta possui uma profunda alma ou sensibilidade e se observa o fenômeno de forma psicológica ou não.

2- Soltar-se a si mesmo (como terapeuta) no auto movimento da alma

Neste capítulo, Giegerich salienta “se” e “em que grau” o paciente deseja deixar-se (soltar-se) dentro do processo terapêutico.

O sacrificar o controle do ego. Aqui é onde há uma submersão no fluxo das imagens autônomas, não do ego. É o processo de interiorização também trazido por Hillman como soul-making, ou no mundo predominante da anima em contraste com o do animus de Jung.

Nesse campo, a autorregulação da alma volta a ter efeitos como fator curador. Aqui a improvisação ganha sentido em relação às singularidades, como por exemplo, quando Giegerich comenta certas situações.

Ars requirit totum hominem – disse o alquimista!

Quando o terapeuta deixa de ser o “expert” especialista que aplica conhecimentos, técnicas e teorias, o paciente deixa de ser “só um caso”. Conceitos universais e diagnósticos, abstrações projetadas nos pacientes e que significam submissões. E então, Giegerich cita Jung (p.60), mas me permito a simplesmente parafrasear Jung pela recorrência escutada em cada supervisão com Waldemar Magaldi: “nós não atendemos doenças, nós atendemos pessoas”.

Nesse capítulo, Giegerich vai retomar o termo neurose e o uso de Jung sobre ele, o qual não me aprofundarei aqui. E também vai salientar o quanto a prática da improvisação só se permite ser realizada por uma mente treinada, trazendo essa responsabilidade para a ação de liberar-se a si mesmo, como analista, na prática terapêutica.

Aqui também trago uma frase relembrada por Giegerich sobre os sonhos: “Learn as much as you can about symbols and forget it all when you are analyzing a dream” (CW18 p. 483).

Outra frase de G que me chamou muita atenção é sobre o processo estar vivo quanto menos eu me importo com o processo, mas apenas com o Agora. E é disso que se trata o movimento de soltar-se como analista/terapeuta. Para ele, o nosso esquecimento é tão importante quanto o recordar.

Outra citação de Jung e preciosa, também sempre relembrada por Hillman, vale a pena deixar aqui em evidência. Embora nós analistas sejamos treinados nessa prática, me chama a atenção o quanto algumas pessoas não respeitam essa forma de lidar com os conteúdos do inconsciente e do paciente. Claro, cada caso é um caso, mas romper com esse olhar traz consequências de projeções que podem retardar os processos de cada um, enfim:

“Above all, don’t let anything from outside, that doesn’t belong, let into it, for the fantasy-image has ‘everything it needs’ within itself” (CW 14 p. 749).

Giegerich vai escrever p. 63: “If it is the Now that has everything it needs within it, then means that it brings along with it the memory of those things that are important to it.” E então, dentro dos paradoxos de uma análise, entre fechar o vaso hermeticamente e deixar-se ao agora, G salienta: “The true psychological locus of memory is not the ego, but the Now.” (p.63) e termina esse capítulo com uma citação do próprio Jung que está em Memórias Sonhos e Reflexões: “

“Sometimes the active intervention on the part of the doctor is required.”

Como se pergunta Giegerich, algumas vezes, mas quando sim e quando não? A well-grounded decision about this question requires a differentiated feeling function, a deep, quasi “instinctual” psychological sensibility, psychological tact, and what Jung once called “subtler intelligence” and “intelligence du Coeur”.

(2 de dezembro de 2024)

O livro segue discorrendo sobre o processo, o agora, o soltar-se e liberar-se, tanto do paciente, da analista, dos sintomas e da paradoxal novidade que se instala em movimento. É uma espécie de mini manual ao qual recorrer, por agora, soltando-me um pouco, deixarei o resumo dos próximos capítulos para os próximos capítulos deste blog, ou quem sabe, como um convite da leitura!


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