Sobre a_LEITURA:
Marion é uma analista que eu pouco conhecia, apesar de muito a ouvir falar, tanto no documentário Caminho dos Sonhos – sobre a von Franz –, quanto ouvir falar sobre ela através de algumas analistas junguianas norte-americanas, mulheres, que acompanho com carinho, pessoal da Pacífica. Acredito que este livro, Vício da Perfeição, me interessou de fato quando a Cris Guarnieri o citou em alguma supervisão clínica (mas isso pode ser minha memória inventando razões para ler esse livro – que, salvo enganos, já cheguei a ouvir ser citado por outras analistas, sobre as questões do corpo, obesidade, anorexias, bulimias).
De fato, o livro chegou após uma situação pessoal. No campo terrenal, demorei muito em escrever um ensaio sobre o movimento da atitude abstrativa nas artes (Tipos Psicológicos) e, ainda após terminá-lo, questionei-me sobre sua validade, importância, necessidade e, inclusive, inflacionada, fantasiei sobre os riscos de ser mal compreendido. Talvez uma outra parte minha diria: balelas, deixe-o livre para ser o que ele, o artigo|ensaio, é.
O artigo|ensaio faz parte do processo de aceitação (por fora e por dentro) como analista junguiana. É o primeiro de outros, espero que muitos outros! E, embora o cuidado no dia a dia da clínica, com as nossas imperfeições, seja um resgate diário, ser terapeuta/analista flui pelo mesmo espírito do tempo e universo em que tantas pacientes se inserem, ou seja, esse em que buscamos ser especialistas e “perfeitas”.
Meu olhar na relação com o livro era de expectativa de um cuidado direto com as compulsões alimentares e, ingenuamente, pensava que até agora não foram esses os tipos de casos clínicos que se aproximaram de mim, então não esperava aproveitar tanto do livro. Ingenuidade! Na verdade, a nutrição e o alimento estão em todos os casos clínicos, em toda a vida, em cada dia. Imaturidade essa pré-percepção; por sorte, a intuição e o sentimento me trouxeram esse livro e reabriram olhares também na clínica. A estrutura arquetípica é muito mais ampla: a busca no corpo, a comida, o vazio, o devorar, a ausência e o ideal da perfeição se relacionam avidamente, entremeadas e, principalmente, quando ainda somos inconscientes dela.
Marion tem uma forma própria de escrita, muito metafórica. Não sei se eu diria tão poética, mas ela dança entre tantas mulheres, apresenta tantos textos, sonhos, imaginações ativas e desenhos de mulheres que ela atende; o livro se torna uma realidade e a imagem arquetípica se materializa nos sintomas, na clínica, nas mitologias.
A princípio, admito, achava o livro chato, mas isso durou pouco tempo (e relendo trechos para este blog achei precioso!). O livro, de repente, se apresenta nobre, mais denso e tão interessante porque é uma leitura|escrita com o feminino presente: contando, doendo, desaparecido, buscado. Talvez, como em muito material que ainda vamos encontrar, o gênero se apresente de forma datada, mas o afastamento da época pode ser realizado se o complexo permitir e nos abrirmos para a compreensão da escrita de Marion.
Sobre ela_MARION
Marion é canadense, nasceu em 1918 e faleceu em 2018. Seu livro, precioso, foi publicado em 1982, por volta dos 53 anos. Embora, em toda a obra de Jung sobre a psicologia analítica, Psique e Soma (corpo) estejam intrinsecamente relacionados, Marion exacerba isso de forma direta ao tratar do corpo da mulher.
Sua vida, sobre a qual só vim saber alguns detalhes agora, parece se conduzir com uma sabedoria generosamente compartilhada . Ela também escreveu um texto clássico recomendado pelo instituto em que eu estudo IJEP ( A Coruja Era Filha de um Padeiro: Obesidade, Anorexia Nervosa e o Feminino Reprimido). A um olhar rápido, tenho a impressão de que sua obra escrita iniciou-se após os 50 anos.
Pois, se em um início senti dificuldade em identificar-me com ela, em aceitar sua escrita mitológica (não me entenda mal, amo mitologia!), ao final do livro agradeço sua generosidade e me encontro nele, assim como amplio para pacientes que atendo. Aproveito para dizer algo que talvez importe pouco, mas tenho buscado mais livros de mulheres, e também em busca de uma escrita vinda do feminino no universo junguiano. Tendo a considerar Barbara Hannah (sobre o animus) incrível, Emma com sua serenidade. Um parêntesis: o livro A Jornada da Heroína, de Maureen Murdock, não me provocou muita aceitação; no momento em que o tentei ler, senti-me afastada de sua lógica. Por outro lado o Vício da Perfeição parece dar conta do que eu buscava ao iniciar o livro de Murdock.
De certa forma, este livro da Marion, para mim, se relaciona muito mais com a jornada da mulher através da dança integrativa entre eros e logos, yin e yang, feminino e masculino. Assim como a jornada do homem, mas vista num contexto em que quem tem passado com suas dores no corpo na clínica, em sua maioria, é mulher.
Para fins didáticos, vou resumir em itens o livro aqui (faz tempo que não faço isso, mas o sentido de revisitá-lo é importante; faz tempo que só leio e não escrevo sobre eles, os livros, tão companheiros). Bem-vinda à sua leitura!
1 – Prefácio:
O livro se apresenta com Lady Macbeth e o “símbolo da mulher destituída de sua feminilidade em razão de seu empenho na consecução de metas masculinas”.
“Repetidas vezes lutei com o corvo negro assentado em meu ombro esquerdo a grasnar: ‘Não está bom o bastante. Você não tem nada de novo a dizer. Você não se expressa bem.’”
“Escrever livros não é um trabalho de camafeu, e apresentar ao mundo uma pedra mal entalhada não é fácil para uma perfeccionista.”
“O pensamento linear não me ocorre naturalmente e, sobretudo, acaba com a minha imaginação.”
Depois dessa mini-apresentação de expressões de Marion, ela da movimento ao seu livro, para além da compreensão unilateral e egoica dessas frases! Com base na história de seus casos clínicos, ela traz, na primeira parte do livro, muito de “obesidade e anorexia nervosa”. E, como ela assinala, conforme o problema do peso corporal vai sendo harmonizado (ela usa a palavra controlado), começam a irromper (essa palavra é clássica na psicologia analítica – aqui, o que irrompe é o que surge do inconsciente): sonhos, imagens de vazio, de prisão, de esquifes de vidro. E é na segunda parte do livro que esse material da mulher moderna será tratado relatando as questões sexuais e espirituais da modernidade – um lamento da bruxa, como ela diz, que também é reconhecido pelos homens.
Para Marion, como analista junguiana, nos bastidores, as manifestações em vício de comer, embriagar-se, compulsão por limpeza, ser perfeccionista etc. se manifestam em cada um(a) de uma forma, mas há o padrão coletivo (inconsciente) que influencia esse comportamento.
Ela vai usar a imagem de um Perseu interior que, ao receber as armas corretas, é passível de entrar em cena “usando o capacete ou manto da invisibilidade, para poder remover a cabeça atormentada”, e “ele não ousa olhar Medusa, e nem desvia o olhar dela na imagem do espelho”. Quando decapita a cabeça, surgem Pégaso e Crisaor, a criatividade e a espada dourada; então, o herói desacorrenta a virgem e a leva consigo.
(curiosamente enquanto colocava esse texto no blog me lembrei que o filho do meu companheiro estava brincando com o primo, fazendo “espadas” de papelão na sala – e ele, que se chama Tiziano, como o pintor do famoso quadro de Perseu e Andrômeda – me presenteou com essa imagem maravilhosa!)

Marion ressalta a cultura patriarcal da especialização e da perfeição, uma espécie de Atena acorrentada à Medusa (energia reprimida e petrificada), e o esquecimento da virgem Andrômeda, que fica presa à rocha, correndo o risco de ser sacrificada ao monstro do inconsciente).
O livro é sobre isso: o coração da impetuosa Atena, a angústia de Medusa e o Amor que transforma.
MEU OLHAR: Acredito que não há muito o que dizer. O mito pessoal, de forma grega e ocidental, está contado; ele dá o movimento que se passa na psique: a busca da perfeição e o enrijecimento, o corpo atado ao petrificado, a amorosidade abrindo espaço relacional para a ação de um ego consciente, e não a projeção de um ego salvador. Embora tudo seja movimento, e leve seu tempo psíquico, os caminhos imaginais e internos são realidades a serem vividas na concretude inconsciente ou conscientemente. Marion traça um caminho belo para a escuta clínica.
2 – Introdução:
“Este livro trata das pessoas que se entregam seriamente a comer e beber, daquelas que limpam a casa sem parar e de todos os outros tipos de compulsão.”
Marion escreve algo doce e duro sobre a realidade: “Como analista, partilho a secreta angústia daqueles homens e mulheres prisioneiros de diversos tipos de compulsão.”
“Quando, ao cair a noite, vem o momento de se recolher, a máscara e o Ser interior não se comunicam.” “Algumas pessoas se deixam levar pelo bando e afundam em álcool, sexo, comida e drogas. Em seu esforço de fugir, dizem: ‘É melhor estar bêbado que enlouquecer…’.”
“Seu ‘eu’ está possuído por algum demônio sobre o qual não tem o menor controle.”
“O princípio masculino perfeccionista, racional, orientado para a consecução de metas (…) equilibrado pelo feminino.”
Para mim, o mais belo desse capítulo é quando Marion escreve sobre seu amigo Tony velejando; essa mesma metáfora da vela e do barco voltará ao final do livro, e talvez seja o mais precioso a manter como imagem no coração para tratar da relação entre o princípio masculino|feminino. Por isso transcrevi o trecho aqui:
“No último verão, meu amigo Tony e eu, de pés descalços e cabelos ao vento, velejávamos em nossa pequena embarcação pelas águas encapeladas de Georgian Bay, deslizando à tona d’água, adernando, soltando mais os cabos, ao sabor das traiçoeiras correntes e do caprichoso vento da baía. Não sou marinheira mas adoro servir de tripulante para meu amigo velejador. Ele facilmente assume o comando do barco e, observando-o excitado e contido, cada músculo de seu corpo tensionado no esforço de manter o barco no rumo, dou-me conta, de repente, de que ele é uma metáfora para o equilíbrio entre masculino e feminino. Vejo o corpo forte e a mente atenta fundidos em perfeita harmonia, ao mesmo tempo concentrados e descontraídos, sensíveis às implacáveis energias em meio às quais velejamos. Sua mão direita controla os cabos com firmeza, seus dedos sensíveis às variações na energia do vento. Sua mão esquerda segura o leme com o mesmo nível de tensão, que não é absolutamente retesamento mas, antes, uma entrega consciente às energias da água. Sabemos que dependemos do vento e das ondas para ir adiante, mas dependemos igualmente de sua experiência de velejador. Uma falha de julgamento de sua parte, um momento de indecisão, e estaríamos sendo arremessados contra a baía, de cabeça e tudo. Com todas as velas içadas, nosso pequenino barco cruza as águas, como se o fizesse sobre o fio da navalha. Firmamo-nos com os dedos dos pés e nos inclinamos para trás, aproximando-nos o mais possível da água para manter o equilíbrio. As mãos dele ficam o tempo todo respondendo às mensagens que leme e cabos transmitem a cada instante.
Ao ancorarmos em segurança, piso no píer com pés ensangüentados de tanta força feita e com as coxas trêmulas, queimando. Tony arria as velas calado, enrola os cabos e sorri, sabedor. O que sabe transpira de suas passadas enquanto sobe a escarpa, confiante, ereto, lépido. Ele conhece sua própria força; confia em seu corpo animal. É capaz de entregar sua força pessoal a outra, infinitamente maior que a sua. O eterno soprou nele porque ele se colocou na exata sintonia necessária para recebê-lo.
Bem, não estou absolutamente sugerindo que eu, frágil fêmea, me coloquei de propósito numa situação para depender de um grande homem forte. Quanto a isso, fico igualmente feliz de servir de tripulante para minha amiga Mary, que é uma velejadora tão experiente quanto Tony. E essa é exatamente a questão. Masculinidade e feminilidade nada têm a ver com reserva de propriedade de um corpo masculino ou feminino. Se somos biologicamente mulheres, o ego é feminino e, dentro de nós, carregamos nossa própria masculinidade, que Jung chama de animus. Se somos biologicamente homens, o ego é masculino e carregamos em nosso interior nossa própria feminilidade, a anima. Masculinidade e feminilidade não são uma questão de gênero, embora, historicamente, em nossa cultura ocidental sua antiga identificação com o gênero ainda nos dificulte vê-las dessa maneira “liberada” . É com base nessa visão liberada da masculinidade e da feminilidade que trabalharei neste livro.
Uma pausa_________________________________________________________________
Entre salvar o arquivo em que lia o livro (este livro eu o li em PDF, porque não tinha o original em português) e, como uma brincadeira do Saci, no Dia dos Inocentes [29/12], junto das crianças aqui em casa, deixei o arquivo todo grifado, com aquilo de mais importante sobre o Vício da Perfeição, perder-se entre um iPad velho e um aplicativo no computador.
Não há maneira: ele se perdeu.
Assim, assumo e retenho que a metáfora mais linda do livro foi essa do velejador, também há um movimento lindo em Andrômeda, Perseu e Medusa como paralelo. E claro, as belas apresentações de suas pacientes, junto ao compilado direto e mito-poético de Marion.
O vício da perfeição é delineado pelas palavras das analisandas de Marion Woodman, que gentilmente dividem conosco suas angústias e viagens psíquicas, poéticas e corpóreas, de relação entre corpo, comida e imagens arquetípicas entre a Grande Mãe, o Pai, a Mãe Negativa. Um passeio pela imagem do Animus espiritual, do malandro, do traiçoeiro e também vinculador – o logos Erótico.
O livro segue assim — não tenho mais o resumo a ser feito. Ele se perdeu, porque talvez o que importe sejam as imagens de cada cliente/paciente que, ao longo do tempo, redesenha-se psiquicamente e corporeamente. Vez ou outra, com uma necessidade de projeção do positivo, para que possa ser conhecido, já que em muitos seios familiares ele nunca esteve; e, então, descobre-se que não se está falando de mãe ou pai, mas de uma IMAGEM anterior, do arquétipo universal, uma imagem que precisa ser vivenciada personalizadamente da maneira que cada uma de nós é convidada a viver.
- 1 – Ritual: sagrado e demoníaco
- 2 – Vício da perfeição
- 3 – O tempo todo
- 4 – Acordo com a deusa { o corpo como vaso sagrado; estudo de caso de bulimia; o diário como espelho de prata}
Na segunda parte do livro surge a mulher que não é senhora nem senhorita: é a Ms. É dela que uma compreensão do animus surge como direcionamento de um conhecimento interior que vem acontecendo ao longo das imagens e dos anos nessas pacientes, já dando ênfase às suas relações corpóreas, muitas vezes esquecidas e reprimidas, ou expressadas de forma inconsciente num aspecto negativo da mãe.
O movimento arquetípico do Self é delicadamente apresentado por Marion ao abordar a questão do estupro: duro, direto, e a consciência do espaço a ser ocupado, que dá espaço ao deflorar e não mais à violência. Estamos no campo simbólico, mas a história exposta no livro, e o cuidado de salientar os movimentos culturais do patriarcado, ou violências, é claro nas palavras de Marion ao narrar a história de uma paciente, sua necessidade, sua viagem interior e os acontecimentos que a interrompem, na concretude e psiquicamente, mas também produzem um movimento na direção e necessidade de criação de consciência — que, no exemplo dado, acontece assim, mas sabemos que isso não é o sempre – e ela trata disso com muita sutileza e sabedoria (recomendo a leitura do livro ).
5 – O mito de ser ms
6 – Estupro e Amante Demoníaco
7 – A noiva arrebatada
Ao final do livro, Marion reimagina o arrebatamento consciente, nos traz de volta o velejador, a metáfora da vela, e com ela encerro este resumo, que se dá como uma recordação de um belo livro do qual perdi todas as notas e grifos, mas guardo a poesia da consciência e a sabedoria de Marion Woodman para a vida e integrada na clínica e na escuta de toda mulher (também homens) que sentem no corpo as feridas dos tempos.
“O animus positivo da mulher, simbolizado no mito por Perseu, é o seu guia até o self. É a sua espada do discernimento que dá a ela a verdadeira noção de quem ela é. Perseu carrega o escudo, o espelho de prata, que é o meio onde se revelam os símbolos de cura provenientes do inconsciente. O espelho é o estágio em que a fantasia criativa brinca na forma de símbolos. Observar os símbolos é lidar indiretamente com Medusa; esse é o único modo de evitar a identificação com ela. Os símbolos não podem ser reunidos de forma racional, mas, ao serem vistos como reflexo, surge alguma coisa nova que partilha de ambas as dimensões sem porém ser nenhuma delas. A energia brinca por intermédio do símbolo sem ficar presa a ele. O vento do Espírito Santo “soprou onde lhe aprouve”, do positivo ao negativo, com a mesma facilidade de uma vela acompanhando as mudanças do vento O ego aprende a se ajustar de momento a momento. A posição da vela no barco em dado momento não é sua posição em seguida e, se tentarmos fixá-la, no novo momento, à posição que antes fora apropriada, o barco vira. Assim que fixamos a vela ou o leme em dada posição, estamos no complexo, o eixo ego-self fica rompido, e afundamos na inconsciência. É crucial que a mão direita saiba o que a esquerda está fazendo, porque deve existir uma sincronicidade entre leme e vela, entre matéria e espírito. Essa não é a mão crucificada, pregada a marteladas nos pólos da oposição, pois não se trata de uma coisa ou tampouco de outra mas, sim, de ambas. Isso é viver a vida simbólica, a vida que se dá pelo reflexo.”
“Se formulamos a pergunta certa: “Eu vejo o que estou fazendo?”, então estamos vivos, no momento. Se formulamos a pergunta errada, então nos paralisamos, porque a mão direita pode não saber o que a esquerda está fazendo. A consciência deve ser levada até seu objeto próprio, que não é a consciência paralisante de perceber as partes como separadas (direita e esquerda), mas a conscientização do todo. A pergunta errada é fatal.”
Assim, agradeço a leitura e aproveito para desejar que 2026 seja um ano com consciência e beleza em nossas ações!
