O autocuidado, que culturalmente vem sendo chamado de maternar, e é bom lembrar que ele, por ser uma qualidade arquetípica, é potencial em todo humano. Esse é o tema do livro de Fu-Kiau, que celebra a vida e a cura, ou o cuidado dela e de nós.
A leitura é preciosa e uma dança dentro de um universo que, para uma mulher branca, também maternada pela grata e laboriosa presença de uma negra muito alegre, sente a presença banto, e aqui se deleita novamente nessa cosmologia, de uma época em que a consciência pouco efeito tinha.
No livro “Self-Healing Power and Therapy – old teachings from Africa”, a cultura Banto é expandida, ampliada no conhecimento das experiências que ensinam cada povo, cada canto do mundo, a cuidar-se. Não quero retirar o tradicionalismo que me afasta de ler algo se eu soubesse, no início da leitura, que questões como homossexualidade e congelamento de embrião seriam consideradas desvios do poder de autocuidado, que podem enfraquecer as funções do corpo.
Sobre esse trecho, extremamente incomodo ao meu olhar ocidental, de uma mulher que se vê feminista, com todas as suas nuances, ele não conjuga, pela consciência, com a própria cosmologia apresentada no livro. Mas, e lá no íntimo, não seria aí onde reside a sombra? Um desconhecimento do que me rodeia? Uma contra tradição? Mas por que isso me impediria de conhecer a bela cosmologia Banto?
Ku kanda dia mbadio mpaka (ntantani) ze’ ko; nga ziswemi mu dia diaku za- zeyi?
Naquela comunidade, muitos conflitos; na sua, quantos?
Junto ao que “desvia” dessa cura está também a mídia de massa, a presença dos sem-teto, ditadores e também a cirurgia plástica. O sentido dessas postulações eu não busco investigar, mas deixo aqui, porque a delicadeza de cada tema é humana, ética e também moral. A sombra de todos nós ainda é imensa.
Mas não quero psicologizar aquilo que se apresentou como um relato antropológico mesclado com cosmologia.
O livro foi publicado em 86. Questões culturais da própria vivência de Fu-Kiau poderiam justificar essas adaptações ao seu tempo, assim como outras questões sobre a cultura de onde vem e por onde apareceu como dos primeiros a levarem esse conhecimento para o campo acadêmico.
A sabedoria de uma África sul, de antes das invasões coloniais, e que observava o nascimento da vida como o sol irradia no livro. Tanto que a palavra para ser humano é Mûntu, que significa o ser vivente e brilhante como o sol.
É esse ser que atravessa a vida e, assim como o sol que, ao desaparecer no horizonte, não deixa de emitir suas radiações, o Mûntu também não deixa.
Vida tão plural e bailante, que nos maternou, nós, brancas e pretas, maternadas para além de nós por pretas, pelas águas de outros continentes e pelas mãos de tantos seres. Tanta pluralidade e diversidade. Assim, o mergulho pelos olhos de Fu-Kiau nesse colo Banto amplia e traz coração para a clínica analítica que amplia, acolhe e recebe a pluralidade de nós como seres irradiantes de uma condição, que mesmo para ser transicionada, requer conexão à essa vida. E isso não é algo abstrato, como este texto, isso é real, uma corda espiritual e material!
Não por acaso iniciei esse texto no “hoje é dia de” futebol, de Cabo Verde, da bela sodade cantada por Cesária Évora, em uma partida com parte das Espanhas em que vivo, ou vivo na Catalunha!? Jogos à parte, a vida é política e as maternagens também. Um povo Banto entrou em campo.
A palavra Banto carrega em si a beleza do que há de inconsciente e consciente em nós: ela é ba – seres, ntu – humano. O livro “Self-Healing Power and Therapy: Old Teachings from Africa”, em palavras mais simples, vai ao encontro da autonomia, da poética de vida de cada ser em sua história, no seu presente-ancestral (palavras tão popularizadas e que talvez tenham perdido seu significado para a gente em tempos de bolhas em rede social).
Fu-Kiau é preciso sobre o que é ancestralidade e deixa claro que na “África” não se veneram mortos. Há alguns vídeos no youtube sobre isso e vou deixar aqui. Mûntus banhados nas águas da vida, que preservam a comunidade e a cura interna, são ressaltados no seu livro.
Não sou ingênua sobre os riscos das curas, sobre as dores dessas águas tão familiares e comunitárias, que também banham as diferenças e consciências que, vez ou outra, crescem. É um livro lindo e sabemos que famílias também doem, tradições são quebradas pela consciência ou não, e assim é.
Fu-Kiau traz os ensinamentos da África dentro de uma pequena pluralidade (bantu-congo) que ele abarca em seu livro. Não é acaso que a palavra Banto significa humanos plurais, e aqui me questiono sobre essas desviações que citei antes e acho que este vídeo (pasmem, do tik tok, afroliterato, pode colaborar!).
O sol nascente, aquele mesmo que tanto vemos na psicologia de Jung e em seu texto “As Etapas da Vida”, é o próprio ser, chamado de Mûntu, que nasce, brilha e desaparece fisicamente no decorrer de sua vida.
Quando o sol se põe, as radiações não cessam, assim como quando um Mûntu, o ser-humano, não é mais “físico”. Não se veneram os ancestrais, mas sim N’singa dikânda waninga, a corda biogenético-cultural que mantém a relação viva entre esses mundos. Essa corda transita no encontro entre psique e matéria, >> eu me arriscaria a dizer<<, em termos psicológicos.
Depois que um Mûntu deixa o mundo físico, ele habita o espiritual, mas essa separação é uma parede invisível em Kalunga; ou seja, ela existe, mas nós não vemos essa água cósmica, essa parede. Assim, o espiritual está nas palavras que permanecem, nos gestos, nas canções, no corpo dos que estão presentes e é menos abstrato do que posso imaginar. É pela presença na terra e do corpo que viver é espiritual e físico. As dívidas econômicas dos que deixam de brilhar, é explicitamente citada no livro. As questões espirituais são muito terrenas, para mim que vim de uma criação cristã católica, onde a “terra” é varrida para fora da igreja, aqui o instinto tem muita presença no tempo e no espaço. Os impostos são pagos!
Roubo de umas palavras:
Diadi nza-Kongo kandongila: Mono i kadi kia dingo-dingo (kwènda-vutukisa) kinzungidila ye didi dia ngolo zanzingila. Ngiena, kadi yateka kala ye kalulula ye ngina vutuka kala ye ka-lulula.
Eis o que a Cosmologia Kongo me ensinou: eu estou indo-e-voltando-sendo em torno do centro das forças vitais. Eu sou porque fui e re-fui antes, de tal modo que eu serei e re-serei novamente.
A cosmologia africana dos bantu-kongo por Bunseki Fu-Kiau: tradução ne- gra, reflexões e diálogos a partir do Brasil – TIGANÁ SANTANA NEVES SANTOS
Recolho minha voz e escuto corpos e as vozes pretas, toco quando me abraçam, e nunca entenderei a profundidade dos saberes que atravessam seus corpos e espíritos, pois nasci branca. Menos ainda suas peles. Mas o que sei é que, ao ler Fu-Kiau, me deparo com um conhecimento daquelas que foram chamadas de sociedades secretas do Banto, mas que só precisaram ser secretas quando a colonização chegou. A corda de conexão biogenética entre os mortos antepassados e o Mûntu é também ponte feita do coração que sente e vem fazer ponte com a minha prática.
Essas cordas me lembram a relação que levo através da psicologia na qual me aprofundo com os sonhos, a sustentação e o caminhar da terapia que realizo. Os sonhos aparecem como imagens de um lugar invisível, mas que são tateadas, escutadas, ampliadas conforme o nosso ego pode lidar com elas, no tempo necessário. Por exemplo, se uma doença chega, voltar-se para esse invisível nos leva ao centro, onde está nossa energia curativa. O sonho deixa de ser invisível, é plantado na terra.
Sobre o centro:
O centro não é individual; ele é singular, mas profundamente conectado ao mundo material, psíquico e espiritual.
Esse centro aparece nos espaços que surgem das imagens do nosso mundo onírico, o mundo dos sonhos. São essas imagens que nos levam ao centro ou, em um paralelo com o que chama Fu-Kiau, para onde está a eletricidade do nascimento do Mûntu — os seres humanos. Algo que, na psicologia junguiana, aproximadamente chamamos de self. Numa outra forma muito arriscada de psicologizar os mundos dos outros, diria no meu idioma que o Self é também coletivo, porque é arquetípico (queridas analistas e queridas filósofas banto, corrijam-me se assim se sentirem com vontade, são percepções arriscadas que compartilho ao misturar visões).
Adoecer é, no contexto Banto que traz Fu-Kiau, perder o próprio Ngolo, ou seja, a sua energia de “self-healing power”, poder autocurativo, que eu diria de autocuidado e amor. Perder o poder de cura nos leva a aproximarmo-nos do outro. É aí onde também está o amor. E é aí onde a terapia, antes de ser analítica, aprende a cuidar, a relembrar algo que já estava dentro da gente e busca embalar-se no colo.
Nos últimos anos, em aprendizagem pessoal e duramente coletiva, é essa harmonia que vou abraçando, num retorno a essa corda vital entre os mundos invisíveis e visíveis, analítica e cuidadosamente.
Aproveito e deixo o convite para quem tiver interesse em conhecer mais sobre a psicologia analítica, IJEP (instituto em que sou especialista e integro a equipe de membros analistas em formação).
E, claro, o convite de ler Fu-Kiau e cuidar da sua própria relação com esse centro de vitalidade!
A imagem de Kalunga
A parede invisível entre o físico e o espiritual me parece uma metáfora extraordinariamente útil para o trabalho com sonhos e com o inconsciente. Não é ausência, é membrana. Algo que separa e ao mesmo tempo permite passagem.
Ngolo e o encontro terapêutico
A ideia de que perder o próprio poder de cura nos aproxima do outro é uma virada amorosa linda. A vulnerabilidade não é falha, mas portal para o vínculo. Isso ressoa como caminho mais comunitário, o que será que nos ensinam? Por outro lado, saber que isso está em nós desde o nascimento, conhecer as formas de acessar nossa vitalidade, nos presenteia com a autonomia.
Embora aqui não seja o foco falar do centro, por essa relação de Fu-Kiau com esse centro que em psicologia junguiana seria levado ao Self, ao Arquétipo, também trouxe um olhar de Bonaventure no seu livro Psicologia e Vida Mística:
Psicologia e Vida Mística -León Bonaventure Moradas 1, II-5



