#Episódio_1 29 | julho | 2026
Almodóvar, Jung e Lispector
Dois homens, de seus tempos, diria uma Virgínia inadequada, quase que se autocensurando em escrever esta frase.
Então, para não esquecer que o que me move agora é o retorno, trago Ela, agora ela é Clarice Lispector.
Almodóvar a parafraseia ” escrevo como se fosse salvar a vida de alguém, probablemente la mía”. O cineasta espanhol se repete no seu último filme, assim como as figuras dos sonhos que a gente tem e que também se repetem. Muitas vezes imagens incompreensíveis não porque não tenham sentido, mas porque a gente não as recorda, não as escuta, não as observamos com cuidado e atenção conscientes! Claro, tem sonhos que também parecem não ajudar, mas no fundo, isso é tudo por conta daquele pedacinho tão potente que também nos faz Ser, um pedacinho danado, ou pedação, emaranhado, chamado complexo! Para Jung é ele que nos quer levar pro lado de lá, para o inconsciente, e uma das formas é através do sonho!
Quando vejo as imagens de Almodóvar me pergunto para onde elas nos levam!? E agora, me pergunto, pra que será que esse artista nos leva até lá?
Elas, as imagens se repetem, elas buscam ampliar-se!
Mas e Clarice!?
Bem, no último filme de Almodóvar há uma série de elementos, que me arriscaria a dizer infinita, de repetição de suas obras, mas com uma pitada a mais de consciência, imagino eu sobre ele, e me deleito. E em todos esses passeios pelo filme, me fixo em um (que não se trata das suas pastilhas, neuroses, poesias, amigas e paixões), me fixo em uma que carrega poeticamente todas essas complexidades, a canção da trilha sonora de Iglesias que se chama “Ansiedad Lispector”. Aí está Clarice, surgindo na barata que apareceu no meu banheiro e que me levou a reler “Paixão Segundo GH”, e no fim de semana seguinte acabei vendo o filme “Amarga Navidad”.
Clarice Lispector, aquela que provoca uma estranheza em Chico Buarque, que a analisa amadoramente em uma entrevista e fala da sua projeção maternal, e Chico no gancho da projeção, será que a amava? E Almodóvar, a ama?
Na minha projeção, mulheres como Clarice podem provocar ansiedades! Podem provocar tantas coisas!
E o que seria a ansiedade Lispector do seu filme? Não me canso de assistir um Almodóvar, assim como não me canso de um Karim! Não me canso de Lispector, mas às vezes, Jung me cansa! Geralmente não passa de uma semana, descanso, e retorno à profundidade de seus estudos, que também são meus!
Esse texto vem acompanhado de uma imagem meio pintura no estilo de Hockney com o parque Güell, uma mistura de chiclete com banana! Ou melhor, de jamón com frutas, não melão, como se come aqui, Jamón ibérico, daquele que dizem que faz bem aos corações com frutas tipo jabuticaba, só pra dar um ânimo pro tema que vem aí, eleições! Gosto de quem gosta de jabuticaba!
Gosto de Almodóvar, de Jung e de Clarice!
E você, gosta do gosto de quem!?