#Episódio_2 26 | junho | 2026
a fantasia da ingenuidade
A ingenuidade, em tempos de tanta informação, parece ser algo impossibilitado de ser, como analista ou até como pessoa. Tendo a dizer que a ingenuidade pode ser algo, inclusive, colocada na sombra, porque parece ser, em um primeiro olhar, inaceitável ser ingênua.
Talvez, por isso, ela apareça justamente no set analítico, quando nem me lembrava que ela poderia existir.
Mas afinal, quem seria ela de quem estamos falando?
Por curiosidade, a ingenuidade já teve uma relação com a liberdade, algo que pessoalmente relaciono ao campo das artes, onde a liberdade, ao menos conceitual e psiquicamente, se permite aparecer. Mas, curiosamente, onde há liberdade polarizada, há também a prisão. É o princípio antinômico. Mas aqui estamos falando da ingenuidade, que do latim trouxe essa relação com os homens que nasciam livres, os ingenuitas. Assim podiam ser diferenciados dos homens que eram escravos, mas foram liberados, os libertini.
Ser livre não é ser ingênua, intuo! Mas fazer do nascimento livre uma arte ingênua parece, assim, ser caminho, e não prisão. Mas se virou prisão, agora cabe liberar-se dela!
Refletindo sobre essa palavra e a permissividade na clínica analítica, que também é, até certo ponto, espaço de liberdade para a psique, me pergunto: onde estaria a ingenuidade? Assim me aproximo da presença dela no próprio nascimento de uma analista livre, que se apresenta no espaço analítico como nascida ali, no encontro das almas, e não liberada de uma escravidão institucional, seja da instituição da saúde, como a medicina ou mesmo a psicologia, ou até uma instituição de psicologia analítica. Ali, onde a desconhecida ingenuidade se apresentava, também estava uma analista livre. E isso não é bom ou ruim, é o que é. Mas se estava livre, também havia uma prisão. E a prisão da ingenuidade está nesse lugar da sombra, no desconhecido, ainda a caminho de descer à terra. Mesmo que, para aterrissar, precise de paraquedas, para chegar aos poucos.
Porém, se assim nasceu a analista ingenuitas, aquela que, de certa forma, poeticamente aceitou o roubo do termo legal dos romanos para si, a analista ladra e ingênua, nascida livre, se pergunta: mas e agora? Talvez não tenha nascido livre, talvez seja também uma analista escravizada, não nas instituições da saúde, mas talvez na das artes. Será possível simplesmente nascer livre, ou seja, ingênua e também livre ao mesmo tempo?
Talvez sim, mas acredito que só através da “consciência da consciência”. E é sobre isso que este texto trata.
Se nascer livre parece coisa de artista, de alquimista, daquele ser que parte do seu próprio nascimento para o mundo. Acredito que em algum momento todas podemos ter nascido assim, todas nascemos com a liberdade em potência, mas talvez, com a vida, esqueçamos disso, esqueçamos da ingenuidade que um dia também foi nossa. E quando isso acontece, viramos escravas? Escravas de pressupostos, ideações, e então a clínica, como metáfora da vida, não flui. Queremos voltar a ser livres? Ah, os quereres!
Ampliando o tema, uma amiga trouxe Clarissa Pinkola Estés falando sobre a ingenuidade como não sendo característica da mulher selvagem, e essa imagem é bela, porque, através do fato de nascer livre, pode-se crescer da própria experiência relacional com o mundo, ingenuamente, ou livremente, colocando a mão no fogo. Queimando, no fogo, apreciando a intuição pela própria ingenuidade. E, paradoxalmente, forjando a vida em consonância com a energia vital, num salto dançante de uma arte marcial, tornando-se uma analista consciente de que também é ingênua, e ao mesmo tempo uma artista mais liberta de sua escravidão, a persona!
E agora, quem sou eu?!
Parte de mim diz que tudo vem de lá, como canta Baby em Masculino e Feminino: “E vem de lá o meu sentimento de ser.”
Mas a ingenuidade é também uma fantasia num título, e as fantasias a gente usa no carnaval, nas festas, a gente se diverte com elas, a gente brinca carnaval, mas, na clínica, pode o analista brincar de ingenuidade? Acho que essa resposta não precisa ser dada, e mesmo que fosse, seria agora um pouco mais consciente do que é essa fantasia da ingenuidade e também a da liberdade.
De qualquer forma, a mão foi queimada no fogo, o corpo da analista forjado na prática, e isso não é uma brincadeira ingênua. Isso é a materialização da relação psíquica, uma aprendizagem, um movimento arquetípico. Um batismo para quem aceita.
E com Jung encerro esse gosto de ingenuidade:
“A prática da psicoterapia não comporta a ingenuidade. Por isso o médico, e também o educador, devem estar precavidos em qualquer momento contra enganos conscientes e inconscientes não apenas da parte do paciente, mas principalmente da parte deles mesmos. A tendência que cada um tem de viver iludido e acreditar em qualquer ficção a respeito de si mesmo — tanto no bom sentido como no mau — é muito grande e quase invencível. O neurótico é sempre alguém que se torna vítima da ilusão. Quem está sendo enganado, engana também aos outros. Tudo pode prestar-se para disfarce e para recursos enganosos. Todo o psicoterapeuta que acredita em certa teoria e em determinado método deve estar prevenido para os casos em que poderá desempenhar o papel de bobo, isto é, quando se tratar de pacientes suficientemente hábeis para garantirem para si mesmos um abrigo seguro por trás dos termos pomposos da teoria, empregando o tal método com a finalidade de encobrir seu esconderijo.
Como não existe montaria isenta do perigo de ser cavalgada até sua morte, da mesma forma é coisa duvidosa fiar-se demasiadamente em teorias da neurose e em métodos de tratamento. De minha parte, acho sempre cômico o fato de que certos médicos hábeis em negócio afirmam aplicar banhos e tratar segundo o método de “Adler” ou “Künkel” ou “Freud” ou até mesmo “Jung”. Não existe tal tratamento, nem pode existir. Se alguém tentar fazê-lo, corre certamente o risco de fracassar.” —
OC 17 O Desenvolvimento da Personalidade §202–203