#Episódio_3 25 | maio | 2026
A outra 25/05/2026
O diretor de cinema Tarcovsky escreve em seu livro sobre “a tentação dos lugares-comuns, das ideias artísticas dos outros” e sobre a necessidade de buscar “sempre de novo, o caminho, o veio ao longo do qual deve mover-se a arte” que para ele é o cinema, mas visito seu texto e penso que essa arte que também é cinema, é também a vida.
E nela, na vida, o lugar comum que pertence ao outro não apraz, não acalma, não indica sequer o veio ao qual cremos que temos que seguir. O lugar comum é realmente tentador, vez ou outra ele se apresenta em modelos de profissionais, de amores, de famílias, de condutas e até valores. O lugar comum se apresenta em algoritmos como se fosse misterioso, quando na verdade é apenas o controle mascarado em estruturas, as velhas estruturas de poder.
Mas então, sobre a dor e a tentação de estar nesse lugar comum, me pergunto, quem é ele, e mais quem sou. Sou mulher no lugar comum, mulher algoritmada de mais de quarenta, imigrante, sou analista. Do inglês aqui rimaria “soul” que significa alma.
Chico César canta “já fui mulher, eu sei” e seu canto, relacional, atravessador das dores me remete a Tirésias, o personagem da tragédia grega que foi castigado com a cegueira, recebendo o dom de ser vidente, transitando entre os gêneros, mas talvez, transitando também dentro das composições de sua própria alma entre o relacional e o sentido, entre o receber, o doar e o definir, encaminhar, conhecidos como yin/yang e tão amaldiçoados como feminino e masculino. Tirésias já foi mulher, sua vidência masculina é sábia, o lugar comum do outro nunca lhe foi conveniente quando visto apenas por um. O lugar em comunhão entre o outro e o eu é o que me forma no mundo, realizando as conjunções entre os aspectos realizadores da alma, mas também aquele que ainda é incompreensível mas insiste e aparece.
Tentação vem de temptatio, de colocar à prova algo proibido, e é curioso o que o artista vem a nos ensinar, que o lugar do outro parece ser proibido ao nosso toque, mas por que seria?
Talvez porque não há manual para a vida, e seguir o caminho do outro pode parecer sedutor, correto e ser instigante, mas no fundo é a possibilidade de um ensaio daquilo que é ser outro, e nunca Si.
Livro Referência: Esculpir o Tempo | Andrei Tarkovsky